Boca do Acre, no sul do Amazonas, completa 136 anos de criação administrativa nesta quinta-feira (22). A data remete a 22 de outubro de 1890, quando o Decreto Estadual nº 67 instituiu o município de Antimari, denominação utilizada naquele período. A trajetória histórica da cidade, porém, começa antes desse marco e inclui expedições, extinções administrativas e sucessivas mudanças de nome.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 3 de fevereiro de 1878, quando o navio Anajás chegou à região da confluência dos rios Acre e Purus. A embarcação transportava uma expedição liderada pelo comendador João Gabriel de Carvalho e Melo, acompanhado de outros 56 cearenses e de pessoas de diferentes origens, em um contexto de expansão da atividade extrativista e do ciclo da borracha na Amazônia.
A presença desses expedicionários, entretanto, não representa o início da ocupação humana da região. As terras já eram habitadas por povos indígenas, entre eles os Apurinã, Jamamadi e Katukina, cujas histórias antecedem a chegada dos grupos ligados à exploração econômica da borracha.
Da criação de Antimari à extinção do município
O primeiro marco oficial de criação municipal ocorreu em 22 de outubro de 1890, com a instituição de Antimari pelo Decreto Estadual nº 67. É essa data que fundamenta a celebração oficial do aniversário de Boca do Acre, que chega a 136 anos em 2026.
A existência administrativa do município, contudo, sofreu uma interrupção poucos anos depois. Em 28 de janeiro de 1895, a Lei Estadual nº 110 extinguiu o município e a comarca. Antimari deixou, assim, de existir como unidade administrativa autônoma.
A restauração ocorreu em 15 de maio de 1897, por meio da Lei Estadual nº 166, que restabeleceu o município e a comarca sob o nome de Floriano Peixoto. A reinstalação aconteceu em 1º de agosto daquele ano. Considerando esse último marco, são 129 anos de restauração administrativa em 2026.
A formação da cidade e as mudanças de nome
As transformações territoriais continuaram no início do século 20. Em 18 de setembro de 1902, foi criado o distrito de Boca do Acre. Décadas mais tarde, em 2 de maio de 1934, a sede municipal foi transferida para esse distrito, elevado à categoria de vila.
A mudança contribuiu para a configuração da cidade que posteriormente consolidaria o nome Boca do Acre. É importante distinguir, porém, a transferência da sede municipal da criação original do município, em 1890, e de sua restauração, em 1897. São acontecimentos diferentes dentro da mesma trajetória histórica.
Outra alteração ocorreu em 1938. Em 31 de março, o município de Floriano Peixoto passou a se chamar Santa Maria da Boca do Acre. Em 1º de dezembro do mesmo ano, a denominação foi simplificada para Boca do Acre, nome que permanece até hoje. Por esse critério, o município completa 88 anos com seu nome atual em 2026.
Transferência para o Platô do Piquiá
A história urbana de Boca do Acre também é marcada pelas cheias dos rios Acre e Purus, que atingem áreas da cidade e impõem dificuldades à população. Como alternativa, ganhou força a proposta de transferir a ocupação urbana para o Platô do Piquiá, área de terra firme considerada mais adequada para reduzir os impactos das inundações.
A iniciativa avançou na década de 1970, durante o governo de João Walter de Andrade. Apesar dos esforços para consolidar a transferência, parte dos moradores permaneceu na área antiga, mantendo a relação da cidade com as margens dos rios e com os desafios impostos pelas cheias.
Afinal, quantos anos tem Boca do Acre?
A resposta depende do acontecimento histórico utilizado como referência. Em 2026, a cidade completa 148 anos desde a chegada da expedição de João Gabriel de Carvalho e Melo, em 1878; 136 anos desde a criação oficial de Antimari, em 1890; 129 anos desde a restauração administrativa, em 1897; e 88 anos desde a adoção do nome Boca do Acre, em 1938.
Essas datas não são necessariamente contraditórias: cada uma corresponde a uma etapa distinta da formação histórica do município. O aniversário oficial, celebrado em 22 de outubro, está associado à criação administrativa de 1890.
Mais do que uma questão de calendário, a diferença entre os marcos revela uma história atravessada pela presença indígena, pela migração, pela economia da borracha e pelas mudanças políticas e territoriais da Amazônia. Diante dessas referências, fica a pergunta aos moradores: qual desses momentos melhor representa o nascimento de Boca do Acre?


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