Barranco continua corroendo a história das grandes avenidas de Boca do Acre

O fenômeno das Terras Caídas continua com força total no pós-cheia deste ano. A fúria do desbarrancamento continua no mesmo local, na principal avenida do bairro Praia do Gado, que corta a comunidade de uma ponta a outra, ou pelo menos cortava, já que desde ontem que o resto de rua que tinha, foi tragado pelo processo erosivo que neste ano de 2021 ainda não deu sossego.

Como resultado de mais uma catástrofe, os moradores do bairro em questão até ontem, quinta-feira (22), tiveram o fornecimento de água cortado. A Prefeitura de Boca do Acre publicou uma nota, avisando que os trabalhadores do Serviço de Água e Saneamento de Boca do Acre – SASBA – retomariam uma obra paliativa, para retomar o bombeamento de água para o Praia do Gado. A nota também alerta os condutores, que a via principal do bairro foi interditada.

A história em ruínas
Quem conta a história de Boca do Acre, fala com saudosismos dos equipamentos públicos que existiam e hoje habitam somente o imaginário da comunidade. Os de pouca idade, não chegaram a conhecer grandes avenidas, que cortavam o Centro da Cidade de Norte a Sul, do Macaxeiral ao Praia do Gado, como era o caso da 15 de Novembro, Getúlio Vargas e a Rua Primeiro de Maio.

Hoje, essas vias estão desaparecendo paulatinamente. Algumas, pela extensão, de tão curta não merecem mais ser chamadas de avenidas, pois perderam grande parte da sua estrutura para a força da natureza, com o desbarrancamento, principalmente da margem direita do Rio Purus, que castiga Boca do Acre pouco a pouco.

Hotéis imponentes, escolas, residências, comércios em geral, tudo já foi tragado pelas águas, no processo corrosivo do desbarrancamento, que corrói também a história do município.

Praça 22 de Outubro
Se não fosse a sagacidade dos historiadores de nossa cidade, e aqueles interessados em registrar os fatos pretéritos, que muito bem contam o passado de Boca do Acre, hoje não saberíamos de uma das maiores praças de Boca do Acre, a 22 de Outubro, erguida e desaparecida no local que hoje está situada a Orla Fluvial da cidade, que também já está sofrendo a ameaça do barranco.

A história conta que as constantes cheias, e a fúria dos rebojos e correntezas do rio Purus, tornavam o solo arenoso de Boca do Acre, completamente frágil e instável, vulnerável ao fenômeno das “Terras Caídas”. O resultado foi o desaparecimento por completo da Praça 22 de Outubro,

Barranco imparável
Dizem os mais antigos, que o rio não vai parar de engolir Boca do Acre. Proferem que o culpado não é o manancial e sim o homem que veio habitar às suas margens, poluindo e degradando e assoreando seu leito, através da ocupação historicamente desordenada e desmedida.

Do Macaxeiral à Praia do Gado, a cidade sofre com a erosão, que ameaça a história, pois há quem vislumbre que daqui a mais cinquenta anos, a Cidade Baixa estará fragmentada, desfigurada e venha a sumir do mapa.

Qual seria a solução?

A solução para a preservação da vida, dos bocacrenses e de Boca do Acre, seria a construção de um gigantesco sistema de contenção. Essa obra monumental inibiria o avanço da ‘Terras Caídas’ e traria uma solução para o problema, da mesma forma que foi realizado na Orla Fluvial. Entretanto, um empreendimento como esse deve fazer parte apenas do imaginário, pois se nem o asfalto das ruas o governo do Estado do Amazonas está providenciando, que dirá uma realização milionária.

O que fazer?

Sem perspectiva, resta ao bocacrense que reside nas áreas de risco, conviver ano após ano com o medo de ver sua casa sendo levada pelas terras caídas, que caem com freqüência e que, pela ação natural, nunca vão deixar de cair, podem até diminuir o ritmo ou ficar como um vulcão adormecido, para tempos depois surpreender.

Outra solução é o poder público lançar mão de um mega projeto de construção de casas populares, para que, a longo prazo, os moradores migrem para as terras altas do Platô do Piquiá.