Além da pandemia, falta de campanhas explica queda na vacinação

Divulgação de notícias falsas e baixa adesão de jovens à imunização são outros entraves, apontam debatedores

No último ano, o país registrou queda na cobertura vacinal, aumentando o risco de surtos de doenças preveníveis. A pandemia teve impacto nesse cenário, mas ele também é explicado por outros problemas, como a falta de campanhas e de capacitação de vacinadores.

É o que afirmam os debatedores do seminário Cobertura Vacinal, realizado pela Folha na última quarta (30). O evento, com patrocínio da farmacêutica Sanofi, foi mediado pelo jornalista Jairo Marques.

Menos da metade dos municípios brasileiros atingiu a meta estabelecida pelo PNI (Plano Nacional de Imunizações) para nove vacinas, entre elas as que protegem contra poliomielite, sarampo e tuberculose. O levantamento foi realizado pelo Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde), com base em dados do Ministério da Saúde coletados até o começo de abril.

Com exceção da pentavalente (contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e a bactéria Haemophilus influenzae tipo B), todas as outras vacinas tiveram quedas significativas. A mais drástica foi a de hepatite B, que tinha 78,6% de cobertura em 2019 e passou para 62,8% no último ano.

Na pandemia, muitas pessoas ficaram com medo de ir a uma UBS (Unidade Básica de Saúde), devido ao risco de contrair o vírus, afirma Arthur Aguillar, coordenador de políticas públicas do Ieps.

Mas, de acordo com o economista, outro fator que explica os números atuais é a falta de estratégias unificadas de comunicação entre governo federal, estados e municípios —já que o SUS (Sistema Único de Saúde) é dividido nesses três níveis.

José Cássio de Moraes, membro da comissão de imunização do Ministério da Saúde, chama a atenção para os problemas de logística que o SUS enfrenta. Alguns deles são a indisponibilidade de vacinas e a restrição no horário de funcionamento das UBSs.

Ele também afirma que há uma falta de capacitação dos vacinadores, que faz com que muitos profissionais não se sintam aptos para aplicar determinados imunizantes.

Moraes ressalta ainda a ausência de campanhas massivas em veículos de comunicação sobre a importância de tomar as vacinas.

Durante o seminário, todos os debatedores reforçaram o quão danosa tem sido a divulgação de notícias falsas nas redes sociais, que põem em xeque a eficácia de imunizantes.

Para Anamélia Lorenzetti Bocca, coordenadora da regional Centro-Oeste da SBI (Sociedade Brasileira de Imunologia), a baixa adesão às campanhas também pode ter relação com um desinteresse das novas gerações, uma vez que esses jovens não viveram surtos de doenças já erradicadas.

Esse tipo de comportamento pode trazer infecções de volta, como aconteceu com o sarampo em 2018, com mais de 10 mil casos na região Norte. Até março deste ano, o país registrou 235 casos da doença.
O papel do governo, de acordo com a especialista, é fazer uma vigilância ativa, entendendo o contexto da baixa adesão à vacina para, então, ir até as pessoas que não se imunizaram.

Regiane de Paula, coordenadora do Plano Estadual de Imunizações (PEI) de São Paulo, afirma que neste ano a cobertura da vacina de gripe caiu em relação a 2020.

Quem tomou o imunizante contra a Covid-19 precisa esperar pelo menos 15 dias para se vacinar contra influenza.

Marcelo Otsuka, vice-presidente do departamento de infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), criticou os chamados “sommeliers de vacina” —pessoas que querem escolher de qual laboratório é o imunizante que vão tomar contra o coronavírus— e afirma que a sociedade só estará segura com uma imunização em massa.

Ele destaca que os efeitos colaterais dos imunizantes nem se comparam aos riscos que a doença traz. “Nós não temos nem vacinas suficientes para ficar escolhendo”, diz.

Para Moraes, o legado que a pandemia deixará para o Brasil é a certeza de que é preciso investir em tecnologia para a produção de vacinas. Ele lembra que tanto o Butantan quanto a Fiocruz, os dois principais laboratórios do país, ainda são dependentes de IFA (ingrediente farmacêutico ativo) vindos do exterior.

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