A falta de oportunidade se intensifica contra imigrantes no Acre

Com a taxa de desemprego e falta de oportunidade crescente no estado, imigrantes se encontram numa situação de vulnerabilidade ainda maior.

GUILHERME LIMES

“Se não está fácil para os acreanos, quem dirá para nós, imigrantes”, assim descreveu Hany Cruz ao questioná-la sobre a falta de oportunidade para estrangeiros no país durante a pandemia. 

Imigrantes no Centro Dia Para Idosos. Foto: Guilherme Limes

Fato é: o novo coronavírus trouxe um “novo” modo de nos adaptarmos. As realidades mudaram como o típico ditado: “da água ao vinho”. Ficamos totalmente dependentes da tecnologia e devido as medidas de segurança sanitária, o distanciamento social e a utilização de máscaras e álcool em gel se tornaram os nossos principais aliados. E com quarentena se tornando necessária, inúmeros estabelecimentos tiveram que serem fechados por tempo provisório e com isso pessoas se encontrando em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

A crise financeira, política e social se difundiram para afetar um contingente de pessoas. A Covid-19 tirou a vida de inúmeros inocentes e deixou sequelas na vida de outras, entretanto a miséria e a desigualdade social se tornaram os novos feijão com arroz de um típico prato popular brasileiro e também de refugiados que chegaram ao Brasil nestes últimos anos.

De acordo com alguns dados apresentados pela ONG Oxfam, a acentuação de pobreza está se tornando cada vez mais extrema no país desde meados de 2018, quando, novamente, a taxa de desemprego se acentuou no país. E agora durante a pandemia, o Brasil se juntou com a Índia e Africa do Sul, como os países com o maior registro de miséria do mundo, ocupando a 21ª colocação.

O estado do Acre fica atrás apenas do Maranhão, como uma das cidades com o maior registro de desigualdade e pobreza do país. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que há acreanos sobrevivendo com menos de R$ 4,08 por dia durante o ano de 2019. Além disso, IBGE apresentou um percentual recente que demonstra a progressão da taxa de desemprego no estado que saiu de 14,5%, em 2019, para 21,7%, em 2020, devido as mazelas ocasionadas pela pandemia.

Estas projeções influenciam diretamente na vida de refugiados que chegam ao país. A falta de oportunidade que antes já era comprimida, se torna ainda maior. Segundo o jornalista Ricardo Westin para o portal de notícias “Agência Senado”, muitas empresas não os contratam por falta de informação e preconceito com currículo dos refugiados. Inclusive pelo imigrantes não falarem a língua portuguesa, isso pode se tornar um empecilho para a abertura de oportunidades. “É por pura falta de informação que as empresas descartam logo de cara o currículo dos refugiados, sem nem mesmo chamá-los para a entrevista. Muitos empresários pensam que o processo de contratação é mais complexo, burocrático e demorado do que o processo de um brasileiro.”

A Engenheira em Informática e técnica em Recursos Humanos, Hany Cruz, é cubana. Viajou o país a fora, e ao chegar o Acre se sentiu bem recepcionada e por este motivo até hoje reside no estado. A engenheira também é poliglota e fala três idiomas, e mesmo possuindo um currículo requisitado não conseguiu ser contratada na área, chegando a trabalhar até como secretária doméstica para sobreviver e ajudar a sustentar sua família pela falta de oportunidade que não a deram por ser estrangeira.

Hany Cruz é colombiana e atualmente coordenadora do abrigo Centro Dia Para Idosos.
Foto: Guilherme Limes

“Eu e meu marido chegamos aqui com nossa filha, quando tinha apenas dois anos. Meu marido é engenheiro mecânico, é automotriz especializado em indústria, possui título de engenheiro agrônomo e também é licenciado em educação. Quando chegamos aqui não existiam politicas de acolhimento a imigrantes e isso dificultou muito a nossa chegada. E depois consegui trabalhar como empregada doméstica em uma casa durante dois anos. Meu marido também depois conseguiu se empregar em serviços gerais no mesmo residencial em que eu trabalhava…”

Hany explica que para poder exercer a função do diploma aqui no país ainda é muito burocrático e para que suas profissões passem a serem validadas é necessário custear muito caro por uma autorização, o que dificultou muito para sua sobrevivência já que teria vindo ao país pensando em agarrar a possíveis oportunidades.

Assim como para Cruz foi muito difícil se adaptar até conseguir uma oportunidade de trabalho, para o venezuelano Deivis José Piñango a situação também foi muito desafiadora. Além de comerciante, também é motorista de caminhão e até chegar no Brasil, Piñango passou por outra civilizações até chegar ao Acre.

Deivis Jose Piñango é venezuelano e está abrigado no Centro Dia Para Idosos.
Foto: Guilherme Limes

O motorista saiu há quatro anos de sua terra natal devido a crise política e econômica que a Venezuela vem enfrentando. Deivis imigrou com sua família para procurar uma nova oportunidade de vida, seu primeiro destino foi a Colômbia, onde não ficou por muito tempo, pois ainda estava difícil de manter financeira no país. Então, se deslocou para o Peru, entretanto, segundo ele, o tratavam com muito xenofobia.

“Então fui para o Peru, onde tive uma condição de vida muito boa. Boa mesmo. Mas tive que sair do Peru pela xenofobia, devido a forma como eles tratavam e se dirigiam as pessoas. Principalmente, aos imigrantes. Não importa se você é colombiano ou brasileiro, você é muito mal tratado no Peru”, frisou Piñango.

Por isso, Pinãngo resolveu sair do país para procurar um local onde pudesse se sentir mais acolhido e que tivesse uma melhor oportunidade de vida para se estabilizar financeiramente e ajudar sua família. Segundo o comerciante, o Peru não fornecia uma boa qualidade de saúde e educação que ele gostaria de priorizar aos seus filhos. E então conversando com amigos pela internet que também estavam imigrando, descobriu que o Brasil era um lugar mais receptivo em relação aos refugiados, por isso resolveu tomar um novo destino e vir para o país.

Quando chegou na fronteira entre Brasil e Peru, no Acre, notou uma grande diferença na forma de tratamento que tinham com os estrangeiros. Deivis explica que recebeu apoio da prefeitura desde que chegou no estado.

Hany diz que já passou por outros estados do país e se sentiu muito bem acolhida no Acre, e que por mais que sua profissão ainda não seja tão explorada no estado, está feliz com a oportunidade que recebeu do governo. Pois com muita dificuldade algum estrangeiro é contratado no Brasil. A engenheira, atualmente, é coordenadora do abrigo de refugiados do estado, localizado no Centro Dia Para Idosos.

Deivis ainda continua desempregado, e com a condição econômica devastada ocasionada pela pandemia no estado, as margens de desemprego se tornam ainda mais inacessíveis. Entretanto, o motorista planeja continuar no Acre até conseguir uma oportunidade de se estabilizar financeiramente e conseguir manter sua família em território acreano.

Foto: Guilherme Limes

De acordo com nota divulgada pelo Governo do Estado do Acre, o fluxo migratório teve que ser retido temporariamente em setembro deste ano, isto se deu pelas medidas exigidas pela Vigilância Sanitária devido a situação de pandemia e o número crescente de refugiados imigrando no estado através da fronteira com o Peru. Além disso, o governo está arcando com recursos para tentar manter a vida de imigrantes, fornecendo tanto abrigo como  também serviços de saúde quanto ao cumprimento no enfrentamento com a Covid-19.