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quinta-feira, 25 de junho de 2026
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As cidades perdidas da Amazônia

É inevitável pensar na floresta amazônica como uma gigantesca mata virgem, praticamente intocada. Todos sabemos que a região é habitada por dezenas de povos indígenas. Mas a ideia predominante no imaginário das pessoas é a de que eles sempre viveram em perfeita harmonia com o ambiente, interferindo o menos possível na natureza e tirando dela apenas o essencial para sua sobrevivência. Ao que tudo indica, essa visão romântica está completamente errada.

E o Acre não está fora dessa concepção com os seus imensos geoglifos que, como havia noticiado OPINIÃO na edição de terça-feira, 31, voltarão a ser estudados, a partir do segundo semestre deste ano, por meio de um escaneador à laser que será utilizado em um avião ou helicóptero por pesquisadores da Universidade de São Paulo, a USP. 

Não que tenham sido erguidas na Amazônia pirâmides ao estilo das construídas por maias e astecas na América Central – isso continua sendo pura ficção. Mas descobertas arqueológicas feitas nas últimas três décadas indicam que, antes de o Brasil ser descoberto, a população nativa da Floresta Amazônica era muito mais numerosa e sofisticada do que se costuma imaginar.

Entre os anos de 1000 e 1400, verdadeiras superaldeias interligadas por boas estradas dominavam certas regiões. Em outras, grupos de até 15 mil erguiam aterros com até 10 metros de altura para construir suas casas sobre eles e dar um chapéu nas inundações. “Existiam sociedades complexas no rio Amazonas quase inteiro, no médio e baixo Orinoco, na Bolívia e em outras áreas”, diz o arqueólogo americano Michael Heckenberger, que há anos estuda um conjunto de agrupamentos desse tipo no Alto Xingu. 

“Em 1500, a Amazônia provavelmente era uma área de enorme variabilidade cultural, om grupos regionalmente interligados”.

Os Geoglifos do Acre

A mais de 2 mil quilômetros de distância da Ilha de Marajó, aqui no Acre, existe outro tipo de vestígio das civilizações que prosperaram na Amazônia antes da chegada de Pedro Álvares Cabral. São os geoglifos, desenhos geométricos que só podem ser notados quando vistos do alto – mais ou menos como as linhas de Nazca, no Peru. 

“Essas figuras indicam que a floresta acreana teve uma ocupação densa por volta do ano de 1200”, diz o pesquisador Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre. 

Formando quadrados, retângulos e losangos, os desenhos chegam a ter 300 metros de diâmetro e são delimitados por trincheiras com até 3 metros de profundidade. A maioria só foi identificada recentemente, por causa do desmatamento na região. Antes, permaneciam encobertos pelas árvores. 

Ranzi considera que ainda é cedo para dizer como os geoglifos foram feitos e qual era a sua função original. Muitos ficam em áreas relativamente elevadas. Portanto, diz o pesquisador, podem ter sido usados para monitoramento e defesa do território. Outra possibilidade é a de que as grandes trincheiras funcionassem como tanques para a criação de peixes e tartarugas.

É possível que os indígenas tenham desmatado vastas áreas do Acre para criar sua rede de geoglifos – são mais de 200 num raio de apenas 250 quilômetros quadrados. “Mas tendo a acreditar que, por causa por causa de fenômenos naturais como El Niños excepcionalmente intensos, o ambiente não era de mata fechada na época da ocupação”, diz Ranzi. O pesquisador calcula que uma população de aproximadamente 60 mil pessoas vivia na região.

Civilizações perdidas 

Os primeiros relatos dos colonizadores europeus que navegaram pela região amazônica davam conta da existência de cidades douradas e de mulheres guerreiras. Falavam também de grandes tribos ao longo dos rios. Gaspar de Carvajal, padre que integrou a primeira expedição ao Amazonas, chefiada, em 1542, por Francisco Orellana, descreveu-as assim: “Não há distância de um tiro de balestra entre a última construção de uma aldeia e a primeira de outra. E nossos barcos navegam 5 léguas entre o início e o fim de cada aldeia”. 

O capitão Altamiro, da expedição de Aguirre, em 1559, arriscou um cálculo para estimar a população local. “Fomos recebidos por não menos que 300 canoas e em cada uma vinham dez índios.” Durante séculos esses relatos foram tomados como pura fantasia, até pela ciência.

De duas décadas para cá, porém, descobertas arqueológicas não deixam dúvidas de que a região abrigou cidades muito maiores do que as que foram descobertas pelos europeus, que mantinham entre si relações de poder e hierarquia, faziam alianças, comercializavam e, é claro, guerreavam. 

O indício mais recente dessas civilizações foi descoberto pelo arqueólogo Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida. Em seu trabalho, publicado em outubro de 2010, na revista americana Science, Heckenberger conta que localizou no Alto Xingu, nordeste do Mato Grosso, vestígios de grandes agrupamentos ligados por estradas e com construções sofisticadas, como pontes e barragens defensivas. 

“A complexa rede de comunicação entre as aldeias comprova a existência de uma grande civilização”, diz. Carlos Fausto, antropólogo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, coautor do estudo, conta que foram mapeados 19 sítios arqueológicos da época pré-Cabral. 

“Algumas aldeias chegavam a ter 500 metros quadrados e abrigavam entre 7500 e 15000 habitantes”, afirma. Com o auxílio de satélites GPS (sigla em inglês para Sistema de Posicionamento de Global), o trabalho mapeou os caminhos que ligavam as aldeias. Eles tinham entre 10 e 50 metros de largura e até 5 quilômetros de extensão. 

“Pudemos localizar intervenções na paisagem original, como aterros, valas, barreiras de contenção”, afirma o pesquisador Heckenberger.

As cidades se pareciam com as aldeias atuais: as residências ficavam em torno de uma praça central, que servia como área para práticas religiosas. “No entorno dos povoamentos, encontramos fossos com até 3 metros de profundidade que, provavelmente, serviam para proteger os habitantes.” A conclusão derruba a teoria de que a Amazônia foi uma floresta virgem, intocada.

A lenda de Z

No dia 20 de abril de 1925, o explorador britânico Percy Fawcett, seu filho Jack e o amigo Raleigh Rimmell deixaram Cuiabá, no Mato Grosso, rumo ao Alto Xingu. Objetivo: descobrir a “cidade perdida de Z”, uma suposta civilização avançada que teria existido no meio da Amazônia. A pequena expedição desapareceu e ninguém sabe exatamente qual foi o destino dos seus integrantes. Será que as sociedades complexas da Amazônia pré-Cabral inspiraram a lenda de Z? Pode ser. Já a ideia de Eldorado – uma cidade abarrotada de ouro e prata escondida no meio da floresta – nada tem a ver com Fawcett nem com o Brasil. Ela provavelmente nasceu na América Central, a milhares de quilômetros do Xingu, por obra da imaginação de conquistadores espanhóis embasbacados com que encontraram nas cidades erguidas por maias e astecas nas florestas tropicais daquela região.