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terça-feira, 30 de junho de 2026
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Dia Internacional da Mulher: Cartas para Odesse e a flor da lua

Era início da tarde quando cheguei em frente à casa de Odesse Moreira Ribeiro, para alguns dona ‘Ó’, para outros Odessí… ou talvez apenas “Odeci”, foneticamente falando, ela se sentirá confortável assim. A senhora de 74, dos cabelos curtos e morenos, extremamente, lisos, de pele levemente bege-escura, abriu o portão branco de ferro muito rápido ao me ver pela entrada de fora devido o calor torrente acreano. Muito sorridente, estava me aguardando enquanto acompanhava um de seus entretenimentos: os canais religiosos. Dona Ó mora sozinha. E ela gosta assim. Mas a pandemia a obrigou permanecer só por alguns meses por prevenção própria e consciente. Todo dia liga para os filhos, netos e amigos para não se sentir solitária e manter o contato.

Muito atenciosa puxou um ventilador para perto das cadeiras na entrada da porta de sua casa para conversamos em sua espaçosa varanda recém-reformada com ajuda do filho, Cláudio Lima. Ainda apontou que tinha que trazer o ventilador, pois eu estava completamente de “preto” e isso intensificava aquela “quentura”.

Odesse nasceu em Mâncio Lima, interior do Acre. Veio de uma família muito batalhadora, mas feliz com o que tinha, seus pais não deixavam faltar nada dentro de casa. Seu pai, o amazonense Francisco Lino Ribeiro, era professor. Admirava muito a sua escrita. “A letra do papai era muito linda. Ele era muito inteligente e humilde. Deu aula para crianças do primário”, contava de forma admirada.

Aos seus sete anos de idade, foi matriculada em um internato para meninas, o Instituto Santa Teresinha, que fica até hoje na cidade vizinha, em Cruzeiro do Sul, também no interior do Acre. Dona Ó disse que foram os anos mais sofridos de sua vida, pois sentia muito falta de sua mãe, a cearense Gessi Moreira Ribeiro. “Chorei tanto quando era criança, que hoje não tenho mais lágrimas.”

“Ficávamos seis meses no internato. Iam muitas pessoas daqui, de Rio Branco; de Tarauacá; Feijó; e de próprio Cruzeiro do Sul. Vinham também pessoas dos seringais. Nós ficávamos de março a agosto. E a cada três meses nossos pais podiam nos visitar. Geralmente o papai ia, levava desodorante, biscoitos, essas coisinhas. Mas a gente (ela e sua falecida irmã, Anessi) não tinha intimidade com o papai assim, né? De ficar conversando com ele. Mas a gente ficava muito feliz quando ele ia, saber o que ele levou.”, explicava contando que o reencontro acontecia na sala de visitas do internato.

Dona Ó conta que é a filha mais velha de seus pais entre seus seis irmãos: o falecido Lino, Franessi, a falecida Anessi, Aldeci e Raimundo. Mas que também tinham outros inúmeros “irmãos”. Como seu pai era professor, acaba sendo padrinho de inúmeras crianças que passaram a viver dentro de sua própria casa durante meses. Ela conta que ainda se impressiona ao lembrar que sua mãe cuidava sozinha da casa com tantas crianças de várias origens. “Minha casa era cheia. Os pais dessas crianças as vezes ajudavam levando alguns alimentos. Mas o trabalho era de quem? Da mamãe. Mas olha… eu não sei como a mamãe aguentava. Além disso [de preparar comida], lavava a roupa de todo mundo. Era aquele horror de mosquiteira pela casa. Menino… era uma diversão”, contava.

Estudos e oportunidades

Enquanto isso, Ribeiro conta que passou muitos meses longe de sua família, se dedicando nos estudos, da forma que podia. O internato era muito severo. Segundo ela, praticamente todas as freiras eram alemãs e apenas duas eram brasileiras. Algumas eram bem carrascas. Ainda durante esse período, disse que era proibido o contato afetivo com homens dentro do colégio, pois seria motivo de expulsão. Ela conta também que eram marcadas com um número em suas vestimentas e armários. “Eu era o número 28”.

Após muita dedicação, recebeu o ofício de magistério, um curso pedagógico, pelo internato. No qual aos 14 anos de idade começou a atuar dentro da educação. Odesse conta que naquela época não recebia seu salário de forma mensal, e sim anual, apenas no final do ano. Então passava o ano inteiro nas coordenações de escolas e secretárias de educação de Cruzeiro do Sul. Então, em 1964, fez sua primeira viagem para fora do estado. Ela e mais quatro amigas foram fazer uma especialização em Colatina, interior do Espirito Santo. No qual passou 9 meses estudando. E voltou ao Acre.

Amores da vida

Foi então quando em 1971, se casou com Raimundo Nonato de Lima. Conta que seu ex-marido era muito cobiçado entre as meninas da pequena cidade e ela mesma não fazia questão nem demonstrava interesse. “As meninas faltavam se rasgar pelo Raimundo. Ele tocava violão… na missa, ele cantava. As meninas faltavam perder a cabeça e eu nem aí.”

Segundo Ribeiro, a tia de Raimundo morava próximo de sua casa e gostava muito dela e de sua irmã, Anessi. Às vezes, ele ia visitar sua tia e passava por perto, mas ela não sentia interesse por ele. Ainda conta que ele era próximo de sua outra irmã, Aldeci. E muitas vezes a presenteava com alguns discos de vinil.

Raimundo tinha acabado de voltar de São Paulo, estava se preparando em um seminário (preparação para ser padre). Era de uma família muito humilde e lá podia estudar e ter uma vida melhor. Mas voltou para o Acre e foi quando os dois se aproximaram.

Em 1973, após se casar, teve seu primogênito, Márcio Lima. Em seguida nasceram, Janaína Lima e Cláudio Lima, do mesmo casamento. Após seu terceiro filho completar 1 ano, mudou-se com a família para Rio Branco, capital do Acre. A trabalho, seu marido foi transferido. E graças a especialização, conseguiu trabalho com facilidade, trabalhou como supervisora da Secretária de Educação Municipal. Diretamente com educação para crianças especiais.

“A gente trabalhava na Secretaria e tínhamos que atravessar uma ponte de ripas que balançava tanto. Eu tinha um medo danado. Mas depois o departamento mudou para perto do Palácio. Eu sempre ia a pé. Naquele tempo qualquer oportunidade era muita coisa”, dona Ó explica que podia não ganhar bem durante aquela época, mas aquilo era sinônimo de riqueza para ela.

Raimundo, na época, também era professor e gerente de banco. Na época também tinha começado a graduar em Direito na Universidade Federal do Acre. O choque na agenda de trabalho de ambos, a falta de tempo e o luxo conquistado pela carreira acabou colaborando para o fim do casamento. Foi então quando em 1990, se divorciaram.

Mais tarde, seu ex-marido se mudou para o Maranhão com seu filho mais velho. A pedagoga teve então que manter a casa e as contas por conta própria, mas contou com ajuda de seus dois filhos que também começaram a trabalhar muito cedo, Janaína e Cláudio.

Ela destaca que mesmo com após a separação, conseguiu manter o respeito e amizade com o ex-marido. “Nunca guardei rancor depois disso. Pra quê? Graças a Deus não tenho raiva dele. Não culpo ele por isso. Ele não imagina o quanto me ajudou.”

A fé e o significado de Antônio

De seu antigo casamento, a casa onde morava havia sido passada para seus filhos, no qual morou por alguns anos até seu ex-marido solicitar para a construção de um escritório de advocacia. Alguns anos depois acabou voltando a residir na casa novamente. A educadora achou melhor se mudar. Passou a morar de aluguel com os filhos em um pequeno apartamento.

Dona Ó conta que depois de muitos anos de trabalho, mesmo que ganhando pouco para manter com aos filhos, em 1996, pôde finalmente se aposentar como servidora pública. Mesmo com as dificuldades os filhos já estavam trabalhando e ajudavam nas despesas.

“O Márcio trabalhava em um lugar muito distante… E o coitado ganhava uma mixaria, ainda trouxe uma namorada pra morar com ele. A Jana passava o dia inteiro trabalhando, tinha dois empregos, ajudava muito. O Cláudio, coitado… andava muito no sol, estudando e trabalhando muito. Era um sufoco…”, contava.

Foi então quando em 1998, sua filha do meio, Janaína, ficou grávida aos 21 anos. Com a família crescendo, começou a batalhar para encontrar uma nova moradia para abrigar os filhos e seu primeiro neto que estava por vir.

“Nos preocupávamos muito. Surgiu uma criança e nós tínhamos que manter. Nós também não tínhamos muitos recursos. Mas não fiquei chateada com ela [a filha], apenas preocupada em como manteríamos aquela criança. Nós também tivemos o apoio do Gean [marido de sua filha]. Então não tinha o que fazer”, explicou concluindo que também receberam alguns presentes para o enxoval do bebê.

Se mudaram para um novo lugar, mas ainda assim não era confortável para todos da casa. A aposentada conta que sempre teve uma devoção muito grande por Santo Antônio, então rezava todas as noites a Deus e rogava ao santo casamenteiro para que pudesse encontrar uma casa confortável e segura, com uma boa localização. E fez uma promessa para que caso realizasse esse desejo, seu neto se chamaria Antônio. Com muita fé acabou encontrando a casa, onde mora até hoje.

“Aí fiquei pensando, já que a gente vai comprar essa casa, foi difícil de encontrar. Não é uma das melhores e também não tínhamos condições de conseguir algo melhor, né? Aí o Raimundo ajudou e passou a casa pro meu nome. E nós ficamos por aqui mesmo. E falei: “Olha, nós iremos batizar este menino de Antônio”, fiz isso, porque sempre achei que teve a mão de Deus em nossas escolhas. E também porque eu acreditava que Santo Antônio sempre poderia proteger ele [o neto]. Então sou muito agradecida. Estou sempre rezando a Deus para proteger meus filhos e netos”

Depois de muitas conquistas e reformas feitas na casa, mesmo que more sozinha, ajuda seus filhos e netos no que puder. Falava isso com muita clareza sem pestanejar. Aparentemente muito feliz e grata por onde mora e a onde estar, segundo ela, todas as noites antes de dormir, abre a porta dos fundos de seu quarto que dá acesso a uma pequena sacada, onde passa à noite admirando o céu e a lua. E fala que ali se conecta com Deus e com o anjos para proteger sempre sua família. “A gratidão gera milagre. Agradeça todos os dias. A porta ali de trás… todas as noites eu a abro e a primeira coisa que faço é olhar o céu, porque Deus é o grande arquiteto do universo. Tem cada coisa bonita que a gente ver por ali [no céu], Ele fez o sol, a lua, as estrelas. E aí passo horas ali. Agradeço muito por eu ainda ter a capacidade de andar… eu enxergo, mesmo com os óculos, eu enxergo… tenho lucidez pra fazer todas as minhas atividades.”

Ela finaliza: “‘Fica sempre um pouco de perfume, nas mãos que oferecem rosas’. Eu adoro rosas. Então sempre ajude, você receberá em troca. Divida um pouquinho do que você tenha, mas dê para quem necessita. Dê. Não dê com pena, não.”