REPÓRTER OPINIÃO
Levantamento diário da Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) mostra que no Acre, a faixa etária de mais de 70 anos é a que mais sofre com casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), seguida da faixa de 40 a 49 anos. As duas juntas foram responsáveis por 80% das internações neste início de fevereiro no Acre, segundo a Sesacre.
Conforme explica Marcos Vinicius Malveira, técnico do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (Cievs), da Sesacre, “uma SRAG pode ser tanto causada pela covid-19 quanto por outro vírus respiratório, que seja Influenza, por exemplo”.
De acordo com o boletim, que é emitido todos os dias pelo Cievs, pelo menos 60 pessoas de 70 anos para mais, estão internadas por estarem acometidas com algum tipo de SRAG no Acre, neste momento. Outras 54 compõem a faixa dos 40 aos 49 anos, enquanto que 48 internações são de pessoas na faixa dos 60 a 69 anos. Na faixa dos 30 aos 39 anos, eles são 25, e o menor número de internados com síndromes respiratórias está entre os de 20 a 29 anos, com apenas 8 pessoas, vindo logo após crianças de 0 a 9 anos, com 4 em tratamento.
Os números acendem o alerta para que não só a vacinação para a covid-19 – que segue acontecendo no Acre ainda que a passos lentos -, mas também contra a gripe comum sejam encaradas com seriedade pela população.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que todos os anos, entre 5% e 10% da população mundial adulta é acometida pela gripe. No caso das crianças, esse percentual varia entre 20% e 30%. O vírus influenza, causador da gripe, é altamente contagioso e, por se disseminar rapidamente, é praticamente impossível evitar o contágio.
Na maioria das vezes, pessoas saudáveis sentem alguns dos sintomas mais comuns – como tosse, febre, mal-estar e dor de cabeça. Mas há casos em que a doença, principalmente em pacientes com condições de risco ou comorbidade (cardiopatas e diabéticos, por exemplo), pode evoluir para casos SRAG, de pneumonia ou até agravamento de doenças crônicas, como a diabetes e hipertensão.
Em reportagem recente à Folha de S. Paulo, a médica Melissa Palmini, fez um alerta para a importância de as pessoas, de todas as idades, se vacinarem contra o vírus. “Apesar de as pessoas subestimarem, a gripe pode matar”, afirma Palmini, que é especialista em Vigilância em Saúde pelo Ministério da Saúde e diretora regional de São Paulo da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm).
“Já está muito bem estabelecido o benefício da vacina contra a gripe para todas as pessoas acima de seis meses de vida, sem limite de idade”, diz.
O pediatra e infectologista Daniel Jarovsky, secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo, concorda. “Há um entendimento de que a vacina contra a gripe seja para idosos, mas isso é um conceito incompleto. Claro que o idoso tem o maior ônus da doença e faz todo o sentido o esforço para vaciná-lo. Mas, as crianças podem ser alvo da doença grave, sim. É o segundo grupo etário mais acometido, após os idosos”, afirma.
Jarocsky explica que as crianças são as principais transmissoras da doença. “Elas transmitem o vírus, em média, por 10 ou 14 dias, enquanto os adultos, por cinco ou sete dias. A vacinação das crianças não é só na proteção para elas, mas proporciona também uma proteção indireta, ou seja, ao vaciná-las, beneficiamos toda a população”, completa. Ele lembra ainda que, diferentemente de outras doenças, a vacinação contra a gripe deve ser feita anualmente, já que a composição da vacina é produzida de acordo com a definição da OMS, com base nas cepas circulantes naquele ano.
O especialista também lembra que o vírus Influenza pode agravar doenças preexistentes. A gripe funciona como gatilho para várias doenças, podendo causar um efeito dominó.
“O impacto no curso das doenças não respiratórias, muitas vezes, é negligenciado, mas o vírus da gripe é um dos mais importantes para desencadear infarto em pessoas propensas a isso. Ele descompensa também problemas pulmonares, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), além de doenças endocrinológicas e neurológicas”, destaca.
Pesquisa da University of New South Wales, na Austrália, e da Arizona State University, nos Estados Unidos, mostrou que a vacina contra a gripe também é eficaz na prevenção de infarto e comparou a imunização feita pela vacina à interrupção do tabagismo e ao uso de medicamentos anti-hipertensivos e de estatinas, que controlam o colesterol.
Saúde pública
“O que as pessoas precisam entender é que, via de regra, em torno de 85% das vezes as doenças respiratórias têm poucos sintomas, uma dor de cabeça ou um mal-estar de poucos dias. Muita gente acredita que não pega gripe e, na verdade, pega, não sabe, e fica transmitindo”, afirma Jarosvky.
A imunização, além de impedir que as doenças infecciosas se disseminem entre os círculos de pessoas próximas, também é essencial na disseminação da procura por atendimento médico, que neste momento é crítico tendo em conta o cenário da pandemia provocado pela Covid-19.
Como as crianças são atingidas?
Tipo de cepa
Crianças são acometidas por ambas as cepas, porém, a cepa B acomete mais crianças do que outras faixas etárias
Disseminação
Crianças entre 1 e 5 anos são as principais fontes de transmissão
Risco maior
Dados brasileiros apontam que criança menores de 5 anos apresentaram as maiores taxas de Síndrome Respiratória Aguda Grave pela cepa B, entre 2012 e 2018
Complicações
As crianças são afetadas da maneira mais severa, o que leva a mais mortes e hospitalizações


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