Desde criança ele já se destacava. Filho único, tinha uma personalidade forte, marcante, efusiva. De família bastante tradicional e abastada, ele sempre havia estudado em colégios particulares de grande prestígio. Suas notas eram altas, visto ser ele o dono de um peculiar jeito de colar nas provas utilizando papel vegetal comestível – ao primeiro sinal de desconfiança da professora, ele mascava a cola em questão de segundos. Era um tipo bastante extrovertido, talvez por ter herdado do pai, empresário do ramo das comunicações, certa tendência à oratória. Gostava muito de ver televisão e jogar games de terror e tiro. Seus pais compravam todos os jogos que eram lançados, e ele precisava jogar muitas horas seguidas para conseguir zerá-los – oito, dez, doze horas seguidas davam conta disso. Líder nato, ainda nas séries colegiais se elegeu representante da turma perante a diretoria, cujos poderes incluíam a defesa das reivindicações dos colegas, e a advertência ao professor de moral e ética que disseminava ideais de solidariedade e empatia – ele tinha aprendido com a mãe que isso era comunismo.
Na juventude cursou os melhores pré-vestibulares e ingressou sem problemas na faculdade de Direito mais cara da cidade. Seus pais tinham dinheiro o suficiente. Achou as coisas na faculdade ainda mais fáceis, visto que o professor já não se importava com colas, e também porque haviam pessoas que faziam seus trabalhos acadêmicos em troca de dinheiro. Sua formatura foi linda, pagou o álbum fotográfico de corpo em camurça à vista.
O pai, em uma ligação, conseguiu um estágio para o filho no mais requisitado escritório de advocacia, cujo dono era um amigo deputado federal pelo partido republicano, e assim ele começou sua carreira. Mas rápido ele notou que podia utilizar seu carisma para conquistar votos e nas eleições mais próximas, se elegeu vereador com apoio do chefe, do pai e de doações de algumas empreiteiras, cuja exploração de mineração e gás era vinculada às negociações realizadas por sua coligação.
Jovem e perspicaz advogado, ele logo atrelou sua imagem às empresas de seu pai, que detinham um considerável valor de influência nos governos municipal e estadual. Assim fez um primeiro mandato muito elogiado por seus pares. Tanto que foi reeleito e depois, eleito deputado estadual.
Dono de uma capacidade invejável de articulação, ele fez amigos, defendeu o partido, destinou verbas às mineradoras que o ajudaram no começo da trajetória. Entrou em esquemas de fraude em licitações, se aprofundou nos processos, estudou a coisa, fez mestrado, virou especialista. O tempo passou e ele herdou os negócios da família. Se elegeu deputado federal, senador da República. Foi nomeado diretor de bancos privados, presidente de empresas estatais, ministro de Estado de vários governos seguidos. Se considerava um homem moderno, à frente de seu tempo.
As pessoas passaram a procurá-lo para pedir conselhos. Sua capacidade de influência ia além de aspectos partidários, pois ele era líder de tramas ilegais com políticos, empresários e juízes de todas as vertentes. Ele sabia de tudo e podia tudo. Não era mais possível iniciar um esquema estruturado e lucrativo sem consultá-lo, pois só ele detinha os contatos mais confiáveis e posto que sua reputação era a mais ilibada de todas, impenetrável, inatingível.
Mas chegou certo momento em que o dinheiro que se ganhava com as operações ilegais já não era mais suficiente…
Paulo Victor Poncio de Oliveira é graduado em Gestão Pública, mestrando em educação e servidor público federal. Especialista em Linguística e Formação de Leitores, escreve crônicas humorísticas e de reflexão sobre o cotidiano, a vida e as coisas da vida.


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