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sexta-feira, 26 de junho de 2026
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Uma conversa com Rafael

Uma conversa com Rafael

Como foi bom sentir o vento gelado no rosto e a sensação de liberdade. Essa foi a frase dita por Rafael*, 22 anos, ao ser perguntado como havia se sentido ao sair da prisão após dois anos preso.

O encontro com Rafael (vou chamá-lo assim para preservar sua identidade) foi dentro do ônibus. Eu cansada de um dia de trabalho, pensando nos conflitos diários e ele, inquieto, pois estava atrasado para ir a Papudinha cumprir seu primeiro dia no semiaberto.

Naquela luta para entrar no coletivo acabamos sentando juntos. Assim que o carro deu partida e saiu do terminal ele me olhou e disse: “Será que consigo chegar até às 18h30, hein?”.

Confesso que fui pelo senso comum e ao olhar rapidamente pra ele e ver tatuagens, já imaginei para onde ele iria. E respondi: “Você está atrasado pra entrar lá, né?”. Ele sorriu e disse: “Como sabe que estou indo pra lá?”. Eu retribuí o sorriso e disse-lhe que havia imaginado. A partir daquele momento começamos uma conversa que duraria 30 minutos, e que me faria transcrevê-la para compartilhar com os nossos leitores.

Rafael se demonstrava preocupado com a hora e me falou que era a primeira vez que estava indo cumprir o semiaberto. Perguntei o motivo pelo qual ele havia sido preso, adiantando-me ao indagar-lhe se era por causa de drogas. Ele, meio tímido, respondeu baixinho e sem jeito: “Homicídio”. Algumas pessoas ao redor nos olhavam com curiosidade. Outras, com desprezo. Ele continuou: “Em um momento de raiva fiz besteira, moça. Mas me arrependo. Perdi minha família e minha vida pelo que fiz”.

Disse-lhe que ele não era o primeiro, nem o último a fazer besteira e que ninguém sabia o que ele sentira para cometer tal ato. Foi quando começou a falar um pouco sobre sua vida.

Rafael nunca soube quem foi a mulher que o trouxe ao mundo, mas que teve uma mãe que o adotou e o criou com todo amor. Infelizmente, ele trazia consigo um trauma, o de tê-la visto morrer de um ataque cardíaco.

“Até hoje me lembro daquele dia e nunca vou esquecer dela. Sei que onde estiver está torcendo por mim”.

Após a morte da mãe, passou a ser criado pela avó e o tio, e por incrível que pareça sofreu preconceito por ser branco e de olhos claros, em meio à família de negros. “Depois que minha mãe morreu, passei por algumas coisas ruins. Um dia minha avó disse que eu não era seu neto dela porque eu sou branco”.

Ao chegar à adolescência ele ia para a igreja, mas após a morte do pastor, foi se distanciando e fazendo amizades com pessoas “erradas” como mesmo disse.

“Quando comecei a andar com os ‘cara’ me afastei da igreja e caí no mundo. Certo dia, de cabeça quente, entrei numa briga. Hoje nem lembro mais o motivo. Peguei um murro no rosto que inchou. Cheguei em casa e meu tio perguntou se eu não tinha vergonha de estar apanhando na rua. Aquilo alimentou meu ódio e no outro dia procurei um rapaz que estava me devendo, aceitei uma arma no valor da dívida e fui procurar quem havia me batido. Eu me vinguei”, ressalta.

O ato impensado custou caro para Rafael. Preso e condenado, ele passou dois anos na cadeia sem receber visitas de ninguém. “Nessas horas não tem amigos, até minha família me abandonou. Sempre que tinha visitas e via os outros recebendo seus familiares eu pensava que sempre tinha sido um bom filho e no primeiro vacilo todos viraram as costas. Enquanto muitos fazem coisa pior e não são abandonados”.

Apesar de tudo que passou, o jovem ainda sonha em terminar o ensino médio e fazer uma faculdade. Segundo ele, reconquistar a confiança da família é o que mais deseja e vai lutar por isso. “Eu sei que eles [familiares] sabem que eu saí, mas ninguém me ligou, a não ser um primo que já puxou cadeia também”.

Ele me perguntou se eu estudava, respondi que sim. Perguntou onde e qual curso. “Faço jornalismo na Ufac”, respondi. Ele logo disse: “Nossa, você deve ser inteligente pra estar lá. Eu não tive a mesma sorte”. Neste momento percebi que apesar das dificuldades que passamos dentro de uma universidade, muitos queriam ter a mesma “sorte” de cursar um nível superior.

Estávamos próximo do ponto que ele iria descer quando ele disse que queria ser como os primos que trabalham, são casados e têm filhos. Mas que ia lutar pra ganhar o respeito de todos de forma honesta. “Vou terminar meus estudos e me formar em administração. Vou casar, ter uma esposa e filhos. Não quero mais passar o que passei ali dentro sozinho. Ainda bem que não me filiei a nenhuma facção”.

A essa altura, já era quase 18h30 quando perguntei se quando estava preso não foi obrigado a entrar em alguns desses grupos. “Moça, os ‘cara’ num obriga ninguém a nada, entra quem quer, eles mostram o estatuto e quem quiser fazer parte faz. Já passei lá e agora quero pagar o que devo pra justiça e viver como uma pessoa direita”.
Seu ponto chegou e ele levantou dizendo: “Tomara que não embacem, nem que esse atraso me prejudique, porque quando a gente quer mudar e fazer tudo certo o bicho ruim atenta”. Assim, ele sorriu e desceu.

A partir daquele momento fiquei pensando: quantos “Rafaéis” não estão por aí, querendo fazer diferente, precisando apenas de uma nova oportunidade? E quantos “Rafaéis” perdemos por preconceito de achar que quem está lá dentro não tem mais jeito e que o mínimo que merece é a morte?
Pelo que entendi, a mesma família que o desprezou indiretamente o levou para a cadeia quando regou o ódio que nascia dentro dele e o fez buscar vingança.

Dryelem Alves é jornalista deste Opinião