Por Valdeci Duarte*
A historiadora acreana, Fátima Almeida, disse que “existem viesses por onde olhar o curso da história: os conflitos no campo, as lutas pelo poder, as lutas da classe operária, cultura, os cotidianos dos diversos estratos sociais” e em meio a esses e a todos os outros conflitos, nasceram essas dezenas de relatos da autora, que compõe sua obra, Suindara Leila Jalul. Quando o leitor se depara com o emaranhado de casos, todos bem perfiladas com a história de muitos personagens, sequer passa por sua mente, serem esses relatos, frutos da imaginação da autora. Ela mesma afirmou, em um presente passado que viveu vivendo, escrevendo o que viveu. Então é isso. Não se trata de imaginação, mas de vivência, de instantes de realidade em que a Leila, viveu, amou e foi feliz. Sobre esta obra de Leila Jalul, diz Altino Machado, em seu blog, que “Suindara está bonitinha. Tem cheiro e gosto de livro. Cheia de pudores, é verdade. Chegou dizendo que é hora de aprender mais, de escrever mais, de aprimorar mais o verbo, afinar os ouvidos e enxergar mais o coração”. Uma afirmação profunda que pode ser constatada ao se folhear as páginas recheadas de histórias aproveitadas pela autora. É emocionante os agradecimentos de Leila Jalul aos amigos que com ela colaboraram na missão de transformar suas vitrines em arte exposta, em livro, uma obra gostosa de apreciar por leitores ávidos por conhecer um pouco dela, uma personalidade acreana, autora das melhores, desde o tempo que escrevia, sem usar computador, em qualquer canto da cidade em que viveu. Nesta obra ela escreveu sobre o jardim que por muito tempo foi sua casa. Adentrando na obra, já gostei de cara dos “Monstros do Bem”. Eles formam o tipo de coisa que nos faz lembrar o tempo que menino era menino e ponto final. Não era como hoje que menino sabe responder e chega ao ponto de defender uma tese para convencer o pai de que ele (o filho) está certo. O pai deixou de ser uma referência de vida, de lei, de conhecimento. A autora atribui esse “avanço” à chegada da luz nas casas, do rádio, da televisão e mais recentemente, da dona Internet. Ah, são males tão essenciais que não dá para dizer que fazem mal a alguém. Mas fazem. Dependendo do ponto de vista e do que se faz com essa invenção do homem, há controvérsias sim. Tendo como um fio “a rua da frente”, a autora puxou vários novelos enfiados na lembrança. Coisa do tempo que o prédio da prefeitura da capital do Acre era uma cadeia e presenciou um crime, enredo central do livro de outra obra acreana de Antônio Stélio. Esse episódio teria envolvido um apaixonado que assassinou seu amor. Outra informação que poucos ainda sabem é que antes de abrigar a prefeitura de Rio Branco, o local foi uma prisão e um hotel de luxo. Nessa mesma crônica a autora faz vir à tona, nas nossas lembranças o que já foi um dia a praça da revolução. Já tendo mudado de nome por algumas vezes. Nesse apontamento que ela fez, os colégios também não foram esquecidos. Assim ocorreu com outros cenários da capital acreana, que sofreram muitas alterações abruptas de nomes, mas talvez quem mais tenha sentido essa metamorfose seja mesmo a rua da frene, até abrigar o famoso, inicialmente visitado (hoje esquecido) calçadão da gameleira. Sobre esta obra, apresentada ao público em 2007, na Tentamen (espaço de muitas memórias), um outro amante da literatura acreana, Isaac Melo, assim expressa sobre a mesma: “Suindara, a nossa rasga-mortalha, ave tão temida pelos acreanos, por se acreditar que seu canto prenuncia agouros. Mas desde há muito a coruja é tida como o símbolo da filosofia, da sabedoria, pela sua notável capacidade de ter uma visão de 360 graus.” Nessa exposição ele não diz, mas quando o leitor viaja pelas dezenas de páginas chega a ter certeza que a autora é uma verdadeira bisbilhoteira da história e das muitas nuances ocorridas nos dois lados do Rio Acre, teria sido um bom motivo para sustentar a imagem da ave na capa da obra, fazendo essa alusão entre ela (autora) e a coruja. Alguns leitores irão ter certa convicção de que a Leila, em cada um dos relatos, era a própria ave de olhos grandes, de hábitos noturnos e visão privilegiada da situação. Imagino que Leila Jalul não viveu em vão até aqui. De tudo ela pode bem escrever já que de tudo um pouco ela parece já ter experimentado. Suas crônicas dizem de tudo um pouco e traça o perfil da comunidade rio-branquense em uma época um pouco remota. Nos dias em que não existiam ligações entre ambos os distritos, por pontes, por fios telefônicos, por ondas cibernéticas. Uma beleza relembrar os bons e inesquecíveis mestres, como Dona Mozinha, que ensinava à moda antiga, uma época em que aprender passava pela dolorosa palmatória. A peça que a autora descreve era “de pau de aroeira”. Meus antepassados que tiveram a oportunidade de ir para a escola, passaram momentos escolares em um rincão nos confins do Amazonas e de lá ainda me contaram fios de lembranças. A palmatória era um objeto de luxo. Geralmente quem a usava não esquecia mais a lição. São relatos emocionados de uma pessoa que deve chorar de saudade do pedacinho de chão ou melhor do seu “torrão torrado” natal, o Acre. Repito: o lugar em (que tudo indica), que ela viveu, amou e foi feliz. Quem não viveu nada disso fica com saudade de ter vivido e ainda estar vivendo para contar tantas proezas. Fazendo um giro geral pela obra identificamos a riqueza exposta nas vitrines que a Leila esculpiu. Por fim, resta dizer que Suindara é uma obra recheada de crônicas que relatam a realidade de uma cidade, de um povo não muito distante do nosso tempo atual. Longe sim, do conhecimento dos habitantes da capital do Acre, principal cenário desta obra deliciosa de conhecer. Após lida, deixo minha singela recomendação de leitura.
*Escritor acreano de Boca do Acre, membro da Sociedade Literária Acreana – SLA e leitor de Leila Jalul.


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