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sexta-feira, 16 de outubro de 2026
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Mensagens de Vorcaro colocam investimentos de fundos de previdência no centro da investigação do Banco Master

Mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro colocaram investimentos de institutos de previdência de servidores públicos no centro das investigações sobre o Banco Master. As conversas mencionam negociações de valores milionários, intermediários e dirigentes políticos, enquanto a Polícia Federal apura operações envolvendo recursos destinados ao pagamento de aposentadorias.

O material também cita Antônio Rueda, presidente do União Brasil, e ACM Neto, vice-presidente da legenda. Com base nas mensagens, a Polícia Federal pediu autorização para realizar buscas em endereços ligados aos dois políticos, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) não autorizou a operação.

As apurações envolvem institutos previdenciários do Amapá, do Amazonas e do Rio de Janeiro. Segundo reportagem do UOL, o Banco Master também realizou pagamentos de R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia ligados a Rueda e de R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto.

Proposta de delação cita supostas comissões

Em uma proposta de delação premiada, Vorcaro afirmou que Rueda e ACM Neto teriam atuado para favorecer o banco em troca de 10% dos valores aplicados por fundos estaduais de previdência. A proposta foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

As declarações fazem parte de um relato apresentado pelo ex-banqueiro e não devem ser tratadas, por si só, como comprovação de que os políticos tenham recebido comissões pelas aplicações.

Amapá Previdência transferiu R$ 300 milhões

Uma das negociações detalhadas nas mensagens envolve a Amapá Previdência. Em abril de 2024, integrantes do Banco Master discutiram uma captação de R$ 400 milhões no estado. A operação avançou nos meses seguintes e foi aprovada em julho, em meio a preocupações dos executivos com notícias sobre problemas envolvendo títulos do banco na Caixa Asset.

Em uma conversa, Alberto Felix, tesoureiro do Master, informou Vorcaro de que a notícia poderia prejudicar a operação. Ele também relatou que Rueda teria dito que seguraria as negociações. Em outra mensagem, o dirigente do União Brasil pediu ao banqueiro que apagasse as conversas.

Segundo a reportagem do UOL, Rueda havia excluído dez mensagens consecutivas daquele diálogo. Pouco depois, Fernando Mascarenhas, diretor comercial do banco, comunicou a aprovação de uma operação de R$ 200 milhões no Amapá.

Em julho, Felix perguntou sobre a comissão de uma consultoria relacionada à negociação. A conversa mencionou R$ 8,9 milhões, e Vorcaro autorizou a emissão de uma nota de R$ 8 milhões no dia seguinte.

Em 1º de agosto, a tesouraria registrou um pagamento de R$ 11 milhões em contas a pagar, identificado como comissão do Amapá. Naquele momento, a Amapá Previdência já havia transferido R$ 300 milhões ao Banco Master.

Intermediários aparecem nas conversas

Os diálogos também mencionam Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, e outro intermediário identificado como Raphael. Ricardo Gordo é apontado pela Polícia Federal como lobista de Vorcaro no Rioprevidência.

De acordo com o material publicado pelo UOL, a consultoria atribuída a ele trabalhava com uma comissão de 10% em operações envolvendo o Banco Master. O percentual é semelhante ao citado por Vorcaro na proposta de delação, mas essa coincidência não comprova que Rueda ou ACM Neto tenham recebido valores dessa natureza.

Em uma das conversas, Raphael teria relatado ao tesoureiro do banco que Rueda pretendia impedir ou adiar determinadas operações.

Amazonas e Rio de Janeiro também são citados

No Amazonas, uma conversa de junho de 2024 mencionou uma captação de R$ 50 milhões relacionada à Amazonprev, instituto responsável pela previdência estadual.

No ano seguinte, o lobista Julio Cezar Avelino escreveu a Vorcaro sobre a influência de um mesmo grupo em Rondônia e no Amazonas. A mensagem também mencionava uma ligação entre um dos envolvidos e Rueda.

O executivo Luiz Rennó também citou o dirigente do União Brasil ao tratar de assuntos relacionados ao Rio de Janeiro. Em uma das mensagens, afirmou que Rueda poderia ajudar o banco por manter contatos em diferentes estados.

No Rio, o Rioprevidência destinou cerca de R$ 2 bilhões ao Banco Master, segundo a Polícia Federal. O ex-presidente do instituto, Deivis Marcon Antunes, foi preso pela corporação em fevereiro de 2026. Conforme a investigação citada pelo UOL, ele teria sido indicado ao cargo por Rueda, em articulação com o governador Cláudio Castro (PL).

Mensagens citam jatos, hospedagem e contratos jurídicos

Além das negociações financeiras, as conversas registram ofertas de benefícios de Vorcaro a Rueda. Em dezembro de 2023, o banqueiro colocou seus jatos executivos à disposição do dirigente. Em maio de 2024, enviou uma aeronave para transportar familiares de Rueda a Miami, onde acompanhariam uma etapa da Fórmula 1.

Outra conversa menciona um pedido de Rueda para que Vorcaro cuidasse dele. O banqueiro respondeu citando um apartamento e uma hospedagem no hotel de luxo Rosewood, em São Paulo.

Os registros também tratam de contratos profissionais. Em agosto de 2024, o departamento jurídico do Banco Master apresentou a contratação do escritório Rueda & Rueda Advogados para atuar em quatro ações, por um total de R$ 15,4 milhões.

A reportagem também relata uma aproximação entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília (BRB). Em julho de 2024, o banqueiro esteve na casa de Rueda, em Brasília, e depois entrou em contato com o dirigente do banco público. Dois dias mais tarde, Rueda enviou uma mensagem dizendo que Paulo Henrique precisava falar com Vorcaro.

ACM Neto é citado em articulações políticas

As mensagens envolvendo ACM Neto incluem encontros com Vorcaro e Rueda. Em setembro de 2024, os dois dirigentes do União Brasil passaram um fim de semana na casa do ex-banqueiro, em Trancoso, na Bahia, na companhia do deputado Elmar Nascimento.

No mês seguinte, ACM Neto pediu uma reunião com Vorcaro e Rueda. O encontro ocorreu em uma sala privada de uma charutaria em São Paulo. Nove dias depois, ACM Neto escreveu ao ex-banqueiro que a situação política em Brasília estava consolidada e que tudo havia ocorrido como desejavam.

Outros diálogos mencionam Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como operador financeiro do ex-banqueiro. Em uma conversa, Zettel afirmou estar sendo procurado por uma pessoa identificada como ligada a ACM Neto. Vorcaro respondeu citando outros interlocutores. O conteúdo divulgado não esclarece o que teria sido entregue nesses contatos nem aponta valores relacionados a eles.

Na proposta de delação, Vorcaro afirmou que ACM Neto teria recebido dinheiro em espécie. A alegação integra o relato apresentado pelo ex-banqueiro, cuja proposta foi rejeitada pela Polícia Federal e pela PGR.

O que dizem Rueda e ACM Neto

Antônio Rueda afirma que sua relação com o Banco Master foi profissional e que os serviços jurídicos foram prestados com emissão de notas fiscais e recolhimento de impostos.

O presidente do União Brasil também criticou a divulgação de trechos de conversas que, segundo ele, deveriam estar sob sigilo e teriam sido retirados de contexto para gerar suspeitas e prejudicar sua reputação. Ele declarou que adotará medidas para proteger sua honra e imagem.

ACM Neto negou ter participado de decisões do governo federal relacionadas à inclusão do Banco Master na lista de instituições autorizadas a receber recursos de regimes próprios de previdência social.

O ex-prefeito de Salvador também afirmou que nunca atuou para que institutos previdenciários aplicassem recursos no banco, inclusive a Amapá Previdência. Disse que não conhece Fabiano Zettel e contestou as tentativas de associá-lo a conversas das quais afirma não ter participado.

Sobre os pagamentos recebidos do Master, ACM Neto declarou que os valores decorreram de serviços de consultoria efetivamente prestados, por meio de um contrato mensal iniciado em janeiro de 2023, com emissão de notas fiscais e recolhimento de impostos. Ele também afirmou estar à disposição das autoridades desde março de 2026 para prestar esclarecimentos.

Investigações apuram aplicações de recursos previdenciários

Os casos envolvendo a Amapá Previdência, a Amazonprev e o Rioprevidência integram os desdobramentos das apurações sobre o Banco Master no âmbito da Operação Compliance Zero.

No Amapá, o aporte de R$ 400 milhões mencionado na reportagem foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que, segundo o UOL, o indicou para o cargo.

No Amazonas, a autorização para a aplicação de R$ 50 milhões foi assinada por um presidente que havia assumido o posto 28 dias antes. Ele também havia trabalhado como contador da campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).

As investigações buscam esclarecer as circunstâncias das aplicações, o papel dos intermediários e a eventual existência de irregularidades na destinação de recursos previdenciários. As mensagens e alegações divulgadas devem ser consideradas no contexto das apurações, sem antecipar conclusões sobre responsabilidades individuais.