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quinta-feira, 8 de outubro de 2026
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Site distribui criptomoedas em troca de divulgação de conteúdo que incentiva voto em Flávio Bolsonaro

Um site de venda de criptomoedas lançou na terça-feira (6) um esquema que distribui “tokens” para usuários que compartilharem a mensagem B22 e conteúdos como vídeos que incentivam o voto em Flávio Bolsonaro.

O site está sendo divulgado em um perfil do Instagram com 12,9 milhões de seguidores, o hyperskidsafrica, que arrecada recursos para construir casas para crianças em Uganda, na África.

Um vídeo das crianças africanas dançando com camisetas amarelas com os dizeres B22 token, cantando “vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro” já teve 1,2 milhão de visualizações. Segundo o site, parte das vendas da criptomoeda B22 irão financiar projetos para as crianças em Uganda.

No vídeo, as crianças incentivam as pessoas a comprar e compartilhar B22. “Por favor, confiem em Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro, Pablo Marçal”, dizem as crianças. “O propósito do novo token é ajudar o Brasil. Dê uma chance, vote diferente”.

O site de criptomoedas informa que as pessoas podem ganhar seus tokens (que resultam em benefícios financeiros pela valorização) caso “compartilhem o projeto –faça uma publicação em rede social mostrando que você participa da comunidade B22”.

Segundo o advogado eleitoral Hélio Silveira, que liderou a equipe jurídica da então candidata à Prefeitura de São Paulo Tabata Amaral, em 2024, o esquema segue as mesmas linhas dos campeonatos de cortes de vídeos do então candidato Pablo Marçal.

“Trata-se da mesma lógica e estrutura do que Marçal fazia –oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha e o candidato”, diz Silveira. Além disso, segundo o advogado, potencialmente trata-se de uma doação de uma pessoa jurídica, a empresa de criptomoedas, à campanha de Flávio Bolsonaro, ao usar sua estrutura e incentivos financeiros para fazer propaganda do voto no 22, número do senador na disputa à Presidência da República.

Marçal foi condenado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico por causa dos campeonatos de cortes, em que os participantes que conseguissem mais visualizações concorriam a prêmios em dinheiro.

A Justiça Eleitoral entendeu que os campeonatos realizados pelo então candidato, com oferta de prêmios e com a hashtag #prefeitomarçal, feriram a legislação, que veda a concessão de vantagem econômica a pessoas para a veiculação de propaganda eleitoral na internet.

Em dezembro de 2025, o TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) manteve a inelegibilidade por oito anos de Marçal na ação sobre concurso de cortes feito pelo então candidato à prefeitura.

Procurada, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que responderia ao questionamento da reportagem nesta quinta-feira (7).

O site B22 afirma ser “um movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala”. Ainda segundo o site da empresa, “O Brasil 22 Token defende o voto 22 por acreditar nessa proposta para um Brasil melhor. Essa é a posição do movimento, apresentada ao público geral.”

O site faz a ressalva de que a distribuição de tokens é “independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral” e diz que o projeto “não é oficial, não é endossado nem tem vínculo com nenhum político, partido, candidatura ou campanha eleitoral, e não é forma de doação eleitoral.”

No X e no Instagram, perfis de Kevim Flores têm feito publicações divulgando atualizações e lançamento do site, com videos sobre as criptomoedas B22, o apoio a Flávio Bolsonaro e a ajuda às crianças africanas. Mas Flores não se identifica claramente como dono do site. A reportagem entrou em contato com o usuário por mensagem no X e no Instagram.

Em publicações no X, Flores usa imagens de urnas com o número 22 e a marca da criptomoeda B22. Ele também fala na valorização que a criptomoeda terá até uma possível vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno. “Acabaram as Bets no Brasil. Viciado tá como, com dinheiro sobrando e louco pra ver 100x. Normal. Quem não gosta de uma valorização absurda de um ativo? Até o @FlavioBolsonaro ser eleito no dia 25/08, teremos mais de 3.000% de valorização nesse meme histórico e legítimo”, diz.

“Vemos é uma operação complexa que envolve uso de cripto, trabalho humanitário, visibilidade em redes sociais e campanha eleitoral. É um esquema extremamente complexo e ilegal”, diz Nina Santos, pesquisadora no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital.

“Primeiro que uma pessoa jurídica não pode fazer campanha eleitoral, então isso por si só já deveria ser proibido”, diz. “Além disso, essa operação, por mais que, supostamente, leve dinheiro para crianças africanas, atrela isso a um aumento de visibilidade de materiais que estão claramente pedindo votos a um dos candidatos. Ou seja, quanto mais o vídeo é compartilhado e quanto mais a tal moeda (que em si já é propaganda política) vende, mais dinheiro, supostamente as crianças ganham.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO