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quarta-feira, 23 de setembro de 2026
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Super El Niño pode provocar 451 mil mortes por calor extremo até fevereiro; Brasil está entre os mais afetados

Um relatório elaborado por pesquisadores do Climate Impact Lab estima que o atual episódio de Super El Niño poderá estar associado a 451 mil mortes adicionais provocadas pelo calor entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. A projeção foi divulgada pelo The Guardian nesta quarta-feira (23).

O cálculo considera o aumento das temperaturas provocado pelo fenômeno climático em diferentes regiões do planeta. O levantamento aponta que os impactos mais intensos devem atingir países tropicais, entre eles Nigéria, Indonésia, Sudão, Índia e Brasil.

Segundo os pesquisadores, a estimativa representa mortes adicionais relacionadas ao calor acima do número que normalmente seria esperado no período. O cálculo não inclui outras possíveis mortes decorrentes de fenômenos associados ao El Niño, como secas, incêndios florestais e enchentes.

O professor Michael Greenstone, da Universidade de Chicago e cofundador do Climate Impact Lab, afirmou ao The Guardian que o número projetado pode parecer abstrato diante de sua dimensão, mas representa pessoas que estarão realizando atividades cotidianas durante o período de temperaturas elevadas.

A projeção considera o intervalo de setembro de 2026 a fevereiro de 2027, período para o qual existem atualmente previsões de temperatura utilizadas no estudo. Os pesquisadores afirmam, porém, que os efeitos sobre a mortalidade provocada pelo calor podem permanecer elevados até junho ou julho de 2027.

Brasil está entre os países mais afetados

O Brasil aparece entre os cinco países apontados pelo levantamento como mais expostos às mortes adicionais relacionadas ao calor provocado pelo Super El Niño.

A concentração dos impactos nos países tropicais está relacionada ao fato de que essas regiões já apresentam temperaturas elevadas e, em muitos locais, possuem populações mais expostas aos efeitos do calor extremo.

Além do aumento das temperaturas, o El Niño pode alterar os padrões de chuva em diferentes partes do planeta. O cenário previsto inclui períodos de seca, incêndios florestais, enchentes e impactos sobre a produção de alimentos.

O fenômeno ocorre em um planeta que já apresenta temperaturas mais elevadas devido ao aquecimento global. Por isso, pesquisadores avaliam que o El Niño atual está acontecendo sobre uma base climática mais quente do que em episódios anteriores.

Fenômeno já ultrapassou recorde anterior

De acordo com o levantamento divulgado pelo The Guardian, o atual El Niño já ultrapassou o recorde de temperatura associado ao fenômeno antes mesmo de atingir seu pico esperado.

O episódio vem sendo descrito por cientistas como excepcionalmente intenso. A preocupação está relacionada à combinação entre o aquecimento natural provocado pelo El Niño e as temperaturas já elevadas pela mudança climática.

A professora Friederike Otto, do Imperial College London, afirmou ao jornal britânico que o fenômeno pode produzir extremos de calor sem precedentes em algumas regiões, com consequências para a saúde, a segurança alimentar e a disponibilidade de água.

Segundo Otto, o El Niño é um fenômeno natural que vai e volta, mas ocorre atualmente sobre uma base de temperaturas cada vez mais altas em razão da queima de combustíveis fósseis.

Como os pesquisadores chegaram à estimativa

Para calcular o possível impacto sobre a mortalidade, os pesquisadores utilizaram métodos científicos revisados por pares que relacionam as temperaturas mensais ao número de mortes adicionais provocadas pelo calor.

A análise abrangeu 24.378 regiões de diferentes partes do mundo. Os dados históricos foram combinados com as previsões de aumento de temperatura relacionadas ao El Niño para os próximos meses.

Como referência, os pesquisadores utilizaram a média mensal de mortes relacionadas ao calor registrada entre 1996 e 2025. A partir dessa base, foi estimado o excesso de mortes que poderia ocorrer durante o período de temperaturas mais elevadas.

O relatório ainda deverá ser submetido a uma revista científica para avaliação por pares. Greenstone afirmou ao The Guardian que os pesquisadores decidiram divulgar os resultados antes da publicação acadêmica por considerarem que as informações poderiam ajudar governos e autoridades a se prepararem para os meses de maior risco.

Pesquisadores defendem preparação antecipada

Os pesquisadores afirmam que parte das mortes projetadas poderia ser evitada com medidas de preparação para períodos de calor extremo.

Entre as ações mencionadas estão sistemas mais precisos de previsão de calor, criação de centros de resfriamento, reforço das equipes de saúde durante os períodos mais quentes e medidas de proteção para trabalhadores expostos ao sol.

A pesquisadora Tamma Carleton, da Universidade da Califórnia em Berkeley, afirmou ao The Guardian que medidas emergenciais podem reduzir o número de mortes no curto prazo, mas defendeu também investimentos para adaptação a temperaturas que podem se tornar cada vez mais frequentes.

Segundo Carleton, a preocupação dos cientistas é evitar que situações atualmente consideradas excepcionais passem a exigir respostas emergenciais permanentes nas próximas décadas.

O relatório também destaca que o impacto do Super El Niño não deve ser analisado apenas pelo número projetado de mortes por calor. Secas, incêndios, enchentes, problemas no abastecimento de água e efeitos sobre a produção de alimentos podem ampliar as consequências do fenômeno em diferentes regiões do mundo.

Fonte: The Guardian.