O recall global de produtos de fórmula infantil da Nestlé pode custar à empresa até 1,2 bilhão de francos suíços (US$ 1,5 bilhão ou R$ 8,1 bilhões) em perdas de vendas, além de causar danos à reputação de suas marcas. O episódio também representa um revés para o novo CEO Philipp Navratil que tenta reconstruir a confiança dos investidores no gigante alimentício suíço.
Na segunda-feira (5), a Nestlé anunciou o recall de lotes de marcas de fórmula infantil, incluindo NAN, BEBA, Guigoz, SMA e Alfamino, devido a uma possível contaminação com cereulida, uma toxina que pode causar náuseas e vômitos.
Os recalls foram emitidos primeiro na Europa antes de se espalharem ao longo desta semana para Ásia, América Latina, Oriente Médio e África, afetando 46 países no total.
Analistas da Jefferies calcularam que aproximadamente 1,3% das vendas globais da Nestlé poderiam ser afetadas, totalizando uma exposição de 1,2 bilhão de francos suíços.
Warren Ackerman, analista do Barclays, estimou uma exposição similar, colocando o risco total entre 0,8 e 1,5% das vendas do grupo. As ações da Nestlé caíram 4,6% este ano.
O recall marca um início de ano difícil para Navratil, que foi promovido ao cargo em setembro após a demissão do ex-CEO Laurent Freixe, que foi descoberto tendo um “relacionamento romântico não divulgado” com uma subordinada.
Navratil busca retomar o crescimento e reduzir a dívida do grupo por trás da Nespresso e KitKats. A Nestlé está cortando 16 mil empregos nos próximos dois anos.
Analistas alertaram que o recall de fórmula arrisca infligir danos duradouros à reputação das marcas, agravando o golpe na credibilidade da Nestlé após uma série de problemas operacionais e acusações de governança corporativa inadequada.
A Nestlé também tem sido criticada na França, onde as autoridades fizeram uma operação em seus escritórios em julho passado como parte de uma investigação sobre seu suposto uso de métodos de filtração não autorizados em água mineral engarrafada. A Nestlé também teve que emitir um recall de refeições congeladas nos EUA no ano passado devido a preocupações com contaminação.
Jean-Philippe Bertschy, analista da Vontobel, disse que o risco reputacional do último recall era uma preocupação maior do que o impacto financeiro.
“O incidente deixa um gosto amargo em relação à execução e comunicação da Nestlé, prioridades para a nova liderança, onde as expectativas eram altas. Isso está longe de tranquilizar os investidores e revive preocupações sobre o controle em uma categoria sensível à reputação”, disse ele.
A Nestlé afirmou que o recall de produtos representava “significativamente menos de 0,5%” das vendas anuais, acrescentando que não esperava que o impacto financeiro fosse significativo para o grupo. A empresa não detalhou como chegou a esse número.
O grupo suíço acrescentou que durante testes de rotina identificou um problema de qualidade com o óleo de ácido araquidônico, um ingrediente da fórmula. A empresa disse que até o momento não houve doenças relacionadas aos produtos.
O analista da Jefferies, David Hayes, disse que a resposta dos consumidores aos recalls variaria por mercado. Ele identificou a China como uma preocupação, apontando para um recall da Danone de sua marca Dumex em 2013, que gerou perdas de 800 milhões de euros em vendas.
Nos EUA, no entanto, a Abbott recuperou a participação de mercado perdida após um recall de sua marca de fórmula Similac em 2022 dentro de um ano.
Fonte: Folha de S. Paulo


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