O último dos regatões do Juruá

O último dos regatões do Juruá

Cristiano Cameli estudou direito até o terceiro ano. Largou a faculdade em Goiânia para viver em regatão no meio da selva. Num rincão da Amazônia, montou um mercado ambulante. O marreteiro de 26 anos vive de vender açúcar, óculos, boné, óleo de cozinha, presilhas de cabelo, arroz, sardinhas em lata, redes de pesca, e de deitar, farinha de Cruzeiro do Sul, carne-bife e mais uma porção do que você imaginar.

Cameli é membro de família tradicional. O tio, Orleir, foi governador do Acre entre 1995 e 1998 com o slogan de campanha “Palavra de Orleir, pode cobrar!” Ganhou as eleições no segundo turno, ao concorrer com o hoje deputado federal Flaviano Melo.

O batelão Cristovão Cameli é a sua casa na maior parte do ano. Vendendo ou não, Cristiano está no rio. Em outubro, ele chegou a Marechal Thaumaturgo, desde Cruzeiro do Sul. À época, o Juruá não estava cheio, mas também nem muito vazio.

Levou três dias para aportar nos barrancos íngremes que levam à cidade de menos de oito mil habitantes, no alto de um morro.

– Fico aqui por seis meses. Só retorno a Cruzeiro quando vender o último grão de açúcar.

As escadarias de Marechal Thaumaturgo, quase em pé, servem de maratona para quem desce por elas até as margens do Juruá. E comumente, são nas primeiras horas da manhã do final de cada mês, que os clientes de Cristiano chegam para as compras. É quando sai pagamento. E o Cristovão Cameli vira um supermercado das águas.

Por isso, Cristiano posiciona a sua nave sempre próxima à foz do rio Amônia, à margem esquerda do rio Juruá, onde receberá também colonos e seringueiros.

Antes ocupada por peruanos e outros invasores de terras, Marechal Thaumaturgo foi tomada pelas tropas de Gregório Thaumaturgo de Azevedo, marechal do Exército Brasileiro, em batalha do início dos anos 1900.

Na ocasião, os vizinhos estrangeiros foram expulsos à bala, em investida dos brasileiros na foz do rio Amônia, bem próximo de onde Cristiano atracou seu barco.

Os regatões já existem há 100 anos nas regiões mais inóspitas da Amazônia e acabam rendendo um bom dinheiro para quem se aventura a morar por meses numa embarcação sortida de estivas e outros produtos de primeira necessidade.

– Sinto saudade da minha família, mas não consigo viver na cidade. Em Goiânia, eu vivia triste. Aqui na selva, eu sou rei. Vivo feliz. Tenho um bom som pra ouvir, uma cozinha pra fazer comida e a felicidade de voltar para casa com o bolso cheio de dinheiro.

A felicidade do jovem marreteiro é completa quando ele põe as canções de Waldick Soriano, de Reginaldo Rossi e de Lindomar Castilho. Dizem que por isso, ele tem alma de velho. Mas não liga.

Nas noites enluaradas, elas ecoam mata à dentro para, quem sabe um dia, chegar aos ouvidos de uma bela moça ribeirinha. Quando isso acontecer, segundo o próprio Cristiano, a alegria na companhia de um rabo-de-saia será completa.
– Só me falta isso.

Última modificação emQuinta, 16 Março 2017 14:15

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