O homem do sabão

O homem do sabão

João Trevisani Filho é o típico brasileiro que nunca teve facilidade. Passou fome. Muita fome. Mas recusou-se a ser coitadinho. Desde que deixou Abatiá, sua cidade-natal ao norte do Paraná, tornou-se um campeão no jogo da vida.

Vivia bolando por aí. Vivia a peregrinar pelo mundo até chegar ao Acre, 25 anos atrás, acompanhado de um monte de marreteiros. Vendia de tapete a panelas de pressão e lhe angustiava não ter paradeiro.  

– Não aguentava mais. Com 18 dias que estávamos aqui, meus amigos resolveram partir. E eu disse a eles: ‘Eu vou ficar. Tenho andado muito. Tenho passado muita fome e não quero mais isso’.

No Acre, não teve esposa, mas fez um filho. O menino hoje serve ao 4º Batalhão de Infantaria e Selva, do Exército Brasileiro. Quando não está no Exército, ajuda o pai a manter a casinha do residencial Eldorado, no bairro São Francisco.

Ali, ele fez a sua fabriqueta de sabão caseiro. É do sabão feito de soda cáustica, do óleo de frituras e de essências aromáticas que João faz a sua renda. R$ 200 por mês é o que dá. E as coisas seriam ainda mais difíceis não fosse a ajuda com o soldo do filho.
Na bicicleta amarelada, ele monta nos dias em que não está fabricando as barras de sabão. Percorre o mundo oferecendo o produto. E oferece também flores emborrachadas para ornamentação.

CRONICAS DO POVO FOTO JUAN DIAZ 4As costas tortas e o andar com dificuldade causam-lhes dores terríveis. É um martírio puxar a bicicleta com os detergentes, desde que um motorista embriagado o colheu por trás o deixando quase entre a vida e a morte.

João tem 60 anos. Mas a vitalidade é de um homem de 30. E o otimismo estampado no rosto o deixa mesmo mais novo. Da família, tem vaga lembrança. Sabe que os dez irmãos e o pai, João Trevisani, de 91 anos, estão em Altamira, no Pará. E só isso.

– A última vez que fiz contato com eles, no início do ano, soube que meu pai tinha pego derrame. Mas perdi novamente o telefone. Não tenho nem mais o endereço deles.

O homem que vende sabão é um pouco de ecologista. De 15 em 15 dias, carrega para casa 25 litros de óleo de frituras já imprestável para uma lanchonete de um mercadinho próximo de casa. O óleo é um poluente de alto potencial, se lançado à terra. Mas com João, a coisa é diferente.  

E o que o faz sorrir mesmo é ser comparado com Tião Abatiá. Sebastião José Ferri foi um dos maiores nomes do futebol paranaense, brilhando em times como o Coritiba, o União Bandeirante, o São Paulo e o Colorado. O conterrâneo morreu em agosto de 2016, aos 71 anos.

– Ele era demais em campo e dizem que eu pareço muito com ele. Eu até acho também. [alarga um sorriso e arregala os olhos de orgulho]

O homem do sabão esbanja simpatia. Mesmo com dificuldade, escancara para o mundo a satisfação de poder respirar. A alegria de estar vivo a cada amanhecer é a sua energia. A graça de poder, ainda que com limitações físicas, enfrentar mais um dia sem titubear, o alimento para continuar.

Para João Trevisani Filho, a vida é como está no Livro da Vida. Não precisa de ansiedade. Só é preciso viver. E um dia de cada vez. João entende que Deus tem cuidado de sua vida e da de seu filho.

Apoiou-se no apóstolo Mateus quando na Bíblia aconselha a não se preocupar com a própria vida, nem quanto ao que comer ou ao que beber ou ao que vestir. Porque a vida é mais importante que a comida, que o corpo e muito mais importante que a roupa.

 

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