O sapateiro de Cochabamba

O sapateiro de Cochabamba

As imponentes montanhas dos altiplanos bolivianos assim como o rosto do filho são os bens mais preciosos guardados na memória de Ronny Torres Mariscal, de 53 anos. As cordilheiras remetem-no à sua terra-natal, Cochabamba, o coração da Bolívia. Já o garoto, bem, essa é a parte mais dolorida da história que se segue.

Mariscal é sapateiro. Aprendeu o ofício remendando calçados de pessoas pobres danificados com o esfregar nas pedras que pavimentam as ruas de sua cidade de origem. É provável que ele carregue no sangue a herança do povo aymara, que floresceu após a queda da cultura Tiahuanaco, cuja sociedade se assentou nas montanhas, antes de serem dominadas pelo império Inca, após o ano de 1438.   

Em 1996, deixou a segunda maior cidade boliviana, a 2,4 mil metros de altitude, para viver na planície amazônica. Foi morar em Cobija, e depois, do outro lado do rio Acre, em Brasileia. Dominou o português e casou-se pela primeira vez com uma mulher de Cobija. Da relação, nasceu um menino.

Entre um reparo de sapato e outro, brincava com o moleque e o ensinava a remendar. Certo dia, o rapaz entrou num ônibus e partiu para São Paulo. A rota é feita todos os anos por milhares de bolivianos querendo prosperar, de algum modo, em Sampa. E apesar de muitos caíram em trabalho de semiescravidão, quem se importa quando o seu país é tão ou mais perverso, quando o assunto é emprego e renda.

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O garoto foi trabalhar na construção civil. Batia estacas. Mas viveu pouco: até os 21 anos. Em 2016, foi executado com um tiro na cabeça em um bairro miserável da grande São Paulo. As circunstâncias em que o crime aconteceu, Ronny Mariscal nunca quis saber.

O garoto, cujo nome ele faz questão de guardar apenas para si, engrossou a triste estatística nacional de mortes violentas. O inquérito foi arquivado, o corpo, trasladado e sepultado em Cobija.

A sapataria Brasil, de paredes descascadas pelo tempo, desde então nunca mais foi a mesma, embora o pai encontre na filha do segundo casamento com uma brasileira, o alento tão merecido.

– Minha princesa vem sempre me visitar. Está adulta e a inspiração que ainda tenho para trabalhar, encontro nela. O meu filho, um dia, eu vou até ele. Disso tenho certeza.

O sorriso sem graça escancara a tristeza da perda do filho, às vezes só reduzida quando chega um amigo ou quando ele fecha a oficina, monta na Suzuki 125, ano 85, e vai dar uma volta por aí, nem que seja ao Lenon, a casa de seresta mais famosa de Cobija, preferida até por brasileiros. Ali, ele pode descansar o coração, enquanto toma um refrigerante de durazno made in Peru.

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