O Buda do Igarapé Preto

O Buda do Igarapé Preto

A casa de Antônio Carlos dos Santos é o mundo. A beira da estrada é o seu lar, e as estrelas, o telhado. Os olhos que vagueiam no infinito, o cabelo rastafári e a existência de quase nada que não seja um saco de estopa com um cobertor dentro dão mostras da personalidade de um homem que vive na impermanência de tudo o que existe ao seu redor. Por isso, o apelido de Negão poderia ser substituído por Buda. 

Negão é Buda inconsciente. Tem perspectiva aguçada sobre a superação do sofrimento. No fundo, sabe que não pode conter-se ante as angústias da vida, mas não se apega aos desejos e entende a vida apenas como mais um estágio a ser cumprido na Terra. 

Há pelo menos oito anos, o paulista de 33 vive a perambular às margens da BR-364, entre as cidades de Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima, no Vale do Juruá, sem um objetivo definido, que não seja a de sobreviver da caridade das pessoas. 

Um dia sua comida pode ser o que sobrou de um prato de batatas fritas acompanhado de um naco de carne assada doado nas festas de sábado à tarde no balneário do Igarapé Preto. No outro, sabe que é quase certo não encontrar nada que forre o estômago. Os óculos estilo anos 70, encontrou numa curva. Caiu bem no rosto. Resolveu adotá-lo. 

E entre um quilômetro e outro, todos os dias Buda vai levando a vida, alimentando-se da caridade das pessoas, dormindo sob o orvalho da floresta e levantando-se apoiado ao cabo de vassoura que serve de cajado para suportar o peso da pança. 

COLUNA CRONICAS DO POVO fraseEm pleno século 21, ele vive como 15 mil anos atrás como os primeiros povos nômades do planeta. E já enfrentou perigos mortais na sua jornada sem fim. Em uma noite, acordou com o corpo ardendo em brasa. Percebeu que estava sendo esfaqueado. Correu para salvar-se. Conseguiu. Mas ficaram as cicatrizes: vários traçados em forma de ‘S’ profundos nos braços e em parte da barriga. 

– O homem é mau e a violência vem do instinto maligno do homem. Digo isso ao senhor porque sofri muito. Cheguei de São Paulo andando porque não consegui carona. Essas pessoas também vêem maldade onde não existe na gente.

Da família, o Buda de Cruzeiro não se recorda – ou parece não querer lembrar-se. 

– Não sei dizer não. 

E é com essa derradeira frase que ele se despede. Na hora de ir, levanta a cabeça, fita o horizonte, ergue o cajado e acena um tchau. Buda ou Negão segue a sua jornada rumo ao nada, certo de que encontrará em cada palmo da estrada a paz para tocar a vida, tão simplória quanto imprevisível e perigosa.

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