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A Voz das Selvas, uma sentinela dos povos da floresta amazônica Destaque

A Voz das Selvas, uma sentinela dos povos da floresta amazônica

Apesar de todas as mídias existentes e possíveis. Apesar dos milhares de recursos de transmissão oferecidos por meio da internet, nenhum outro meio de comunicação é tão eficiente do que o Rádio. Esse dinossauro da difusão humana, sem dúvidas, ainda é o mais eficiente, por alcançar famílias inteiras em locais, muitas vezes, remotos do planeta, como costuma ser na Amazônia.


Em comemoração ao Dia Mundial do Rádio, celebrado hoje, OPINIÃO traz um pouco do cotidiano dos profissionais da Rádio Difusora Acreana, também conhecida por ‘A Voz das Selvas’, frase que por si só revela o potencial da emissora de atingir grandes distâncias nos rincões amazônicos.

Em algum lugar no interior da floresta, o céu está fechado. Por muitas horas, a chuva de inverno castiga a casinha feita de madeira de Paxiúba, coberta de palhas de Ouricuri, fazendo o dia virar noite. No meio de relampejos e da mata fria, a família do pequeno extrativista Roberto Matos se acomoda junto a vizinhos de colocação, para ouvir pelo Motorádio a pilhas, o programa ‘Mensageiro Difusora’.

E lá se vão os mais variados comunicados radiofônicos, a maioria de recados simples, porém de uma importância imensurável para quem está encrustado na mata. Alguns são para dizer que a cirurgia do compadre foi bem-sucedida. Outras para anunciar que resolveram demandas, e tudo mais o que for preciso dizer desde a cidade a quem está a milhares de distância do mundo moderno, à espera de uma reposta.

Programas como o ‘Gente em Debate’, por exemplo, são líderes de audiência ao abranger praticamente todo o interior do estado, e comunicar por até duas horas ininterruptas, conteúdos de todas as editorias: desde mundo à economia e cotidiano local.

Aliás, essa interação com a comunidade, sobretudo, com as famílias de seringueiros e pequenos extrativistas espalhados pelos rincões da selva, está em sintonia com o que recomenda a Unesco, instituição da Organização das Nações Unidas que incentiva uma maior participação das comunidades nas políticas e planejamento de radiodifusão. O tema para a edição do Dia Mundial do Rádio de 2017 é ‘O Rádio é Você’.

“Numa época em que a própria ideia da verdade está cada vez mais sendo questionada, o rádio está numa posição privilegiada para unir as comunidades e promover um diálogo positivo pela mudança”, diz Tom Francis, especialista de programa da Unesco para o Desenvolvimento Midiático e Sociedade. Completa que o rádio “nos faz lembrar da importância de ouvir uns aos outros novamente”.

É como lembra o diretor-geral da Rádio Difusora, o jornalista Washington Aquino, à frente dos microfones da emissora há 33 anos: “Nenhum outro meio de comunicação alcança tantas pessoas de uma maneira muito eficiente e prática que o rádio. E para nós, o foco é justamente o interior, aquelas pessoas mais humildes com quase nenhum recurso para a informação que não um radinho de pilhas”.

O front da notícia já não tem mais repórter

“Bom dia. Estamos começando mais um jornal Difusora. Ao povo cruzeirense, a nossa solidariedade neste momento difícil por causa da alagação. Chamamos Nonato Costa, desde Cruzeiro do Sul, com as últimas informações sobre a enchente”.

A chamada acima, do jornalista Júnior César, abriu o noticiário da última sexta-feira, 10. Há 22 anos no rádio, ele coleciona uma série de situações do cotidiano, guardadas até hoje na memória. Reconhece que a vida foi facilitada pelas novas tecnologias, mas lamenta-se de algumas transformações, com o por exemplo, a quase ausência do repórter no front da notícia, como acontecia na década passada.

“Hoje, quase não vamos mais ao cenário do acontecimento porque está quase tudo ao seu alcance pelo WhatsApp. Me refiro ao aplicativo como um canal direto entre as pessoas da periferia e o repórter, seja para reclamar de um serviço, seja para informar mesmo. Então, o contato direto com a pauta já quase não existe”, pontua César.

O ponto positivo foi a instantaneidade da notícia e a rapidez com que ela vai para o ar. Antes, Júnior César trabalhou na Rádio Alvorada, na década de 1990, onde usava gravador-cassete e a máquina Olivetti.

Júnior César conta que um calhamaço de papel, interconectados por carbono, compunha a reportagem datilografada. As várias cópias eram necessárias para que na apresentação do radiojornal, locutores e equipes técnicas entrassem em sintonia. Além disso, rolos de fitas no gravador Akai dificultavam o conserto de um erro, antes do material ir para o ar.

“Hoje, por meio de um netbook sobre a mesa, no estúdio, nós interagimos perfeitamente com o mundo e com os nossos ouvintes”, diz ele.

E como foi no surgimento da televisão, quando pensava-se que o rádio iria acabar, o mesmo aconteceu com o aparecimento da internet. A rede mundial que conecta bilhões de pessoas, todos os dias, na verdade, tornou-se um aliado forte do rádio. Hoje, aplicativos como o Shout Cast, que vem ‘casado’ com muitas ‘smart TVs’, possibilita acesso a milhares de rádios, de diferentes categorias, no mundo inteiro. E a televisão, a internet e o rádio casaram-se numa espécie de relação poligâmica que só trouxe benefícios à comunidade e tranquilidade aos jornalistas.

‘Ternurinha’ e ‘Gogó de Ouro’ no museu

Grandes profissionais como Eliseu Andrade, Ilson Nascimento, Zezinho Melo, Nilda Dantas e J. Simplício, ou fazem parte da equipe Difusora, ou já deram a sua contribuição e se inseriram para sempre no hall dos grandes nomes do rádio.

Numa das salas da rádio, um acervo de pelo menos 250 itens compõe o museu. E vão desde a LPs de Lindomar Castilho e Teixeirinha aos aparelhos Akai tão arcaicos quanto os gravadores de mão para fitas cassetes.

Ali, é possível ver Nilda Dantas à estilo Greta Garbo, em vestido de gala, ao lado de Zezinho Melo. Ela a ‘Ternurinha’. Ele, o ‘Gogó de Ouro’ do rádio, durante a cobertura de Carnaval no final da década de 1970. Nesta época, a Difusora tinha até programas de auditório.

Dentro de um balcão envidraçado, há cartões-postais enviados pelos Correios ainda nos anos 1980, de locais como Dortmund, Viena e Amsterdã. E existe até uma foto da rainha Silvia, da Suécia, com a família real. Os cartões foram enviados por ouvintes a mais 10 mil quilômetros do Acre, numa época que jamais sonhava-se com e-mails, embora as ondas da Voz das Selvas tenham chegado às essas áreas.

Relatos de uma época de singularidade do rádio acreano

Ilson Nascimento, o Ilson ‘Maninha’, 67 anos, é diretor de jornalismo. Está na Difusora há 38 anos e recorda-se de momentos históricos, alguns que abalaram os acreanos, como foi a morte do governador Edmundo Pinto, em 1987.

“No dia em que o corpo chegou de São Paulo, o clima era de muita tristeza nas ruas. E particularmente, para nós, da rádio, foi terrível porque éramos acostumados a tê-lo aqui com a gente. Ele vinha sempre nos visitar e era querido por todos”, relembra Maninha, cujo apelido ganhou do saudoso jornalista José Chalub Leite.

Júnior César, por sua vez, recorda-se do dia que se encontrou com uma ouvinte na rua que o imaginava como um homem forte e loiro. Quando ela viu o jornalista indo para a fonia do carro, onde passaria um flash, disse: “Você que é o Júnior César! Não é o que o Bimbi fala no Mundo Cão. Pensei que você fosse mais alto, loiro mais bonito, ave Maria!”

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