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As consequências do abuso sexual

As consequências do abuso sexual

Crianças, no auge da inocência, são atraídas diariamente para as presas de abusadores que não se importam com o mau que causam a estes vulneráveis. De acordo com dados divulgados pelo Portal Brasil, apenas em 2015 e 2016, o disque 100 recebeu 37 mil denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes. A maioria das vítimas eram meninas. Deste número de denúncias, 72% eram referentes ao abuso sexual e 20% a exploração sexual.

Abuso sexual infantil: A ferida invisível que sangra por toda vida

8e9 1Um carinho inocente, uma bala despretensiosa, a atenção demasiada. São atitudes assim, normais dentro de uma convivência familiar, entre amigos e até de vizinhos que levam ao abuso sexual de crianças e adolescentes que entre seus relatos contam como acontece e a forma como o abusador faz parecer normal. São muitas as faces do abuso que vem escondida atrás de várias máscaras.

A ferida invisível de alguém que sofre sozinho acaba resultando em sequelas e traumas que duram uma vida inteira para vítimas que, quase sempre, permanecem em silêncio e derramam suas lágrimas no escuro de uma prisão sem grades.

De acordo com dados divulgados pelo Portal Brasil, apenas em 2015 e 2016, o disque 100 recebeu 37 mil denúncias do crime com pessoas de até 18 anos. A maioria das vítimas eram meninas. Deste número de denúncias, 72% eram referentes ao abuso sexual e 20% a exploração sexual.

Os fatos narrados por Ana, 32, (nome fictício) faz parte da história de inúmeras crianças que passaram e passam por isso. Os números são grandes, mas muitos ainda ficam escondidos pelo medo e a ameaça.

“Tinha uns oito anos quando comecei a perceber que durante a madrugada alguém passava a mão em mim. Como era tudo escuro eu olhava e não via ninguém, mas tinha a impressão de sentir que alguém saía de lá, e, só podia ser meu padrasto”, (fez um silêncio após o desabafo).

Ao cruzar as mãos ela continuou, “o que eu fiz desde então foi colocar o guarda-roupa na porta e colocava minha cama encostada nele, pois se tentassem empurrar eu ia sentir e me acordar.”

Desta forma, Ana conviveu durante toda a infância com o medo. Fugindo como uma caça do predador. O sentimento, segundo relata, é como se fosse a mais frágil dentro da cadeia alimentar. Para onde quer que fosse sentia o cheiro da ameaça.

A vítima conta que ele [o padrasto] gostava de acariciar seu corpo e quando contava para a mãe, ela não acreditava. Ana lembra que a mãe saía e a deixava sozinha com o agressor. Para proteger-se ela se escondia, trancava-se em um quarto nos fundos da casa e ficava chorando, quieta para ele não achá-la.

Com o passar dos anos, o padrasto morreu, Ana cresceu, formou família, mas as marcas do passado, a ferida que foi aberta quando ainda criança, continua a sangrar. “Eu criei um trauma. Hoje, sou casada, tenho filho e não gosto de agarrados ou que passem a mão em mim, nem que seja em forma de carinho. Isso me dá uma coisa ruim.”

A assistente social, Elaine Martins, que atua no Centro de Referência Especializada da Assistência Social (CREAS) de Senador Guiomard, diz que o ponto principal é o cuidado da família em orientar e apoiar caso a criança ou adolescente relate sobre o abuso.

“A família precisa estar atenta, pois, muitas vezes, o violador é uma pessoa próxima, que tem a confiança da criança ou do adolescente. É necessário manter um diálogo frequente, preventivo, e quando surgir a problemática ser a família a primeira a acreditar na possibilidade e então buscar a verdade e denunciar. Família é essencial na recuperação física e emocional da criança que sofreu abuso sexual”, pontua a profissional.

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Um problema sem classe social

8e9 1 1A psicóloga Fernanda Saab afirma que este é um problema que não tem classe social. Não está atrelado à pobreza, mas a todas as camadas da sociedade, mas existe a idade da vulnerabilidade.

“O abuso acontece em todas as classes sociais. Não está ligado à pobreza, miséria, ou ao subdesenvolvimento. Acontece em todas as camadas sociais”, afirma Saab.

Ainda de acordo com os dados do Portal Brasil, cerca de 40% dos casos acontecem dentro da faixa etária de 0 a 11 anos. Entre 12 e 14 anos em torno de 30,3% e entre 15 a 17 anos em média 20% dos números registrados.

Maria Cláudia outra vítima, hoje, aos 20 anos está dentro da faixa etária apresentada pelos dados apurados através do disque 100. Aos nove anos, quase foi estuprada por um desconhecido. Ela conta que perdeu a mãe quando criança. Para sustentar os filhos, o pai ia para a colônia e os irmãos cuidavam uns dos outros. A vulnerabilidade tornou-se ainda maior.

“A gente teve que aprender a se virar cedo, eu ia sozinha para a escola. Certo dia, um homem, que vivia no portão de sua casa e toda vez me cumprimentava, me chamou para entrar. Na inocência, entrei e ele me jogou na cama e começou a passar a mão nas minhas partes íntimas, gritei e saí correndo. Me escondi no mato, uma mulher me encontrou chorando e me levou para casa”, relata.

A jovem relembra que ao chegar em casa não queria contar o que havia acontecido, pois ele havia jurado de morte, mas mesmo assim contou aos irmãos. Eles foram à casa do homem, ligaram para a polícia, foram para a delegacia para fazer o boletim de ocorrência e o homem foi preso.

“Tento levar uma vida normal e esquecer, mesmo que eu não consiga entender o que aconteceu”.

Os casos registrados esbarram na dificuldade da falta de informação. Às vezes, a vítima é coagida pelo agressor e na maioria dos casos, sequer, a criança tem conhecimento do que está acontecendo. Não sabe que se trata de uma violência, segundo pontua a assistente social Elaine Martins.

“Infelizmente uma das dificuldades encontrada ainda é a carência na prevenção do abuso sexual infantil, seja na escola, na família, na sociedade em geral. Ainda fecham os olhos para essa realidade, muitas vezes pela falta de preparo em lidar com a problemática”, afirma.

A sedução

“Um cuidadoso ritual de sedução é introduzido pelo abusador, dificultando a criança o reconhecimento da prática como abusiva. Por ser praticado predominantemente por membros da própria família, é muito frequente o uso da relação de confiança existente entre o adulto e a criança/adolescente, em favor do abusador”, descreve a psicóloga Fernanda Saab.

A terceira vítima, que conversou com Opinião, relata que o abuso veio de um vizinho que, pela proximidade com os moradores, conseguiu atrair suas vítimas sem que fosse punido pelo crime cometido.

“Infelizmente tive que carregar comigo, por anos, o trauma até entender que podia contar para minha família. Nunca ninguém desconfiou de nada e ele também nunca foi preso, embora eu não tenha sido a única vítima”, relata Cristina, que assim como os demais personagens é tratada com nome fictício.

A vítima relembra que, aos cinco anos, brincava na rua com outras crianças e o vizinho, ficava sentado, olhando. Certa vez chamou a criança e começou a esfregar a genitália na menina, por baixo da saia que ela usava.

“Sabe o que é alguém fazer algo que você não sabe o que é, mas entende que é errado, pois a pessoa te diz que se você contar irá apanhar? Pois é, foi o que me aconteceu”, relata a vítima.

Os anos se passaram e quando veio à revelação, também veio a decepção. “Contei o que havia acontecido comigo e a resposta que tive de um dos familiares foi que eu era sem vergonha por não ter contado na época. Mas ninguém sabe o que acabamos levando no decorrer do nosso desenvolvimento quando um monstro faz isso”.

A jovem diz que, hoje, tem uma filha e sempre procura estar atenta para que ela não seja mais uma vítima. “Não quero que minha filha perca a inocência de criança, pois isso aquele monstro levou quando tentou me abusar. E se posso dar um conselho, mães conversem com suas crianças, olhem dobrado para elas, o perigo está onde menos se espera”.

FOTO JUAN DIAZ 1Perfil do abusador

O perfil do agressor aponta para homens adultos de 18 a 40 anos como principais autores dos casos denunciados através do disque 100.

Para a psicologia trata-se de uma forma de transtorno, distúrbio, até mesmo uma “doença”.

Sintomas na vítima

Depressão, insegurança, agressividade, desempenho escolar comprometido, perturbação do sono, transtornos alimentares, medo, mudanças de comportamento, não querer ir a certos lugares, ou encontrar “certas pessoas“. Os sintomas são visíveis, segundo alerta a psicóloga Saab.

Além disso, ela acrescenta que assim como o abusador muitas vezes atrai a vítima pela confiança, a família, para descobrir, precisa agir da mesma forma.

“É importante ouvir as crianças e demonstrar o quanto acredita nelas, deve abrir espaço para diálogos sobre sexualidade e reflexões sobre tabus, crenças, valores, estar sempre perto e procurar algum profissional como psicólogo”, complementa.

As dificuldades no combate

Para Martins, as dificuldades no combate ao abuso começam quando, muitas vezes, o familiar prefere não acreditar na criança, ou mesmo após denunciar ficar ao lado do agressor ao invés da vítima.

“Finalizo dizendo que violência sexual é crime e deve ser sempre reportada às autoridades, não é necessário você ter certeza, ou ter testemunhado um fato, se você suspeita de que algo possa estar errado, pode denunciar anonimamente através do Disque 100 (Disque Direitos Humanos), ou recorrendo ao Conselho Tutelar mais próximo”, conclui Martins.

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