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Quando a imbecilidade fere a reputação de inocentes

Quando a imbecilidade fere a reputação de inocentes

Embaixo da pele humana, seja esta vermelha, amarela, branca, cinza, marrom ou preta, milhões de plaquetas, hemácias e glóbulos brancos correm nas veias, no sangue incrivelmente igual ao seu, ao meu ou ao do seu irmão. 

capa especial racismoE antes que você ache que vamos falar de biologia, saiba que o assunto é intolerância racial, um mal que merece a atenção da sociedade, e que ainda causa danos terríveis a quem é atingido por ele, principalmente hoje, num mundo em que tudo e todos estão conectados às redes sociais, locais onde o massacre ainda é mais covarde e impiedoso.

Na reportagem, OPINIÃO conta os detalhes dos crimes de injúria, difamação e prática de preconceito racial sofrido pela contabilista e modelo acreana Ediane Caetano, no Facebook, e como seus agressores, três no total, serão acionados na Justiça. Estão nas páginas a seguir.

“O que fizeram comigo fere a todas as negras deste país”, diz modelo vítima de racismo

O que seria apenas uma sessão de fotos para registrar os últimos momentos da gravidez para uma mulher negra acabou contribuindo para que três indivíduos, entre eles uma moradora de Cruzeiro do Sul, estejam sendo processados por crimes de injúria, difamação e preconceito racial no Acre.

A vítima é Ediane Maria Oliveira Caetano, contabilista e modelo profissional. No último dia 8 deste mês, ao ter suas fotos publicadas nos sites EcosDaNotícia, Caetano, que também é miss Acre Beleza Negra 2016, se viu informada por amigos que um dos acusados o atacava com palavras ofensivas de cunho racial do tipo ‘negra dos cabelos de bucha’ e ‘mulher horrível’.

Os assaques, publicados abertamente na página do Facebook do site EcosDaNotícia, logo se alastrou pela rede e chegou a mais agressores.

Justamente por terem sido cometidos em uma página de um dos sites mais acessados do Acre, os crimes de ‘injúria com conotação racista’, previsto no Artigo 140, parágrafo 3º do Código Penal Brasileiro, e de ‘difamação ‘, segundo o Artigo 139, também do Código Penal Brasileiro, ganhou enormes proporções na rede, e chegou à grande mídia, como os portais de notícias G1, UOL e R7.

Mas afinal, o que faz as pessoas promoverem ‘massacres virtuais’ com consequências terríveis para suas vítimas? “Não há justificativas plausíveis”, responde a médica psiquiatra mineira Ana Beatriz Barbosa, autora do livro “Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas”.

“Mas certamente os alvos são aqueles que não conseguem fazer frente às agressões sofridas. Por isso é um ato covarde”, ressalta Barbosa.

De acordo com a especialista os agressores escolhem quem está em franca desigualdade de poder, seja por questão socioeconômica, de idade ou de porte físico. Mas no caso dos agressores da modelo acreana Ediane Caetano, a covardia parece ter um viés diferente.

Na apresentação da sua página do Facebook, um deles se autodenomina como um indivíduo de ‘posição política de direita’, fazendo menção a Hildebrando Pascoal, o coronel da PM e ex-deputado federal que cumpre pena no regime aberto, depois de ser condenado a mais de 100 anos por crimes de extermínio, num suposto esquadrão da morte.

codigo penalCita ainda Jair Bolsonaro, o deputado polêmico que se eleito presidente promete ‘acabar com a violência’ de uma forma muito simplória para a realidade. E menciona também o coronel do Exército Brasileiro já falecido, Carlos Alberto Brilhante Ustra, considerado um dos homens mais terríveis da ditadura militar no Brasil.

Outro fato interessante é que por diversas vezes, o acusado vem alterando sua página, algumas vezes mudando o sobrenome, outras vezes removendo a foto de apresentação, supostamente temendo sofrer ataques de ‘haters’, os chamados ‘odiadores’, que muitas vezes se levantam propositalmente contra aqueles que praticam esse tipo de violência na internet.

Na última quarta-feira, 20, na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher Vítima de Violência, antes do depoimento ao delegado Adriano de Morais Araújo, Ediane Caetano dizia se sentir abatida com a situação, mas nem por isso, demovida da ideia de seguir à frente com ações por danos morais contra os acusados.

“Não foi na página pessoal. O que fizeram contra mim foi publicado abertamente, num site muito conhecido e de peso midiático”, diz ela, referindo-se ao site Ecos da Notícia.

“O que fizeram comigo fere a todas as negras e demais afrodescendentes deste país”, entende Ediane Caetano, que agora deverá ser ouvida na justiça, no próximo mês. Os acusados serão intimados também a depor.

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Quem foi o coronel admirado por um dos agressores

coronel ustraCom um histórico terrível de torturas e assassinatos, Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do Exército que morreu aos 83 anos, em outubro de 2015, vítima de pneumonia, foi acusado de mais de 40 mortes e de ter comandado pelo menos 500 casos de torturas quando chefiava uma delegacia de polícia em São Paulo.

No dia 17 de abril do ano passado, durante a votação aberta do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, na Câmara, o deputado Jair Bolsonaro, do PSC do Rio, rendeu homenagens ao militar, protagonizando um dos atos de maior indignação entre os familiares das vítimas da ditadura.

O gaúcho Ustra foi chefe do Destacamento de Operações Internas (DOI-Codi) de São Paulo no período de 1970 a 1974, em plena vigência do Ato Institucional nº 5. Foi uma das épocas mais sombrias da ditadura militar brasileira (1964-1985), que deu poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados. Ustra seguiu à risca essa cartilha.

Major Tibiriçá

À frente do DOI de São Paulo, ele ficou conhecido pelo codinome de Major Tibiriçá e, segundo levantamento do projeto “Brasil: Nunca Mais”, foi responsável por 502 casos de tortura e de mais de duas mil prisões políticas. Algo surpreendente para quem tinha acumulado uma carreira militar banal antes de se tornar um dos nomes mais temidos do regime. No Quartel General do 2.º Exército, na capital paulista, Ustra chegou a atuar na seção de informações apesar de sugestão contrária do resultado de um teste psicotécnico.

Torturador reconhecido pela Justiça

Em 2008, Carlos Brilhante Ustra tornou-se o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador durante a ditadura. Em agosto de 2012, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) manteve a sentença judicial que responsabilizava o coronel reformado por crimes de tortura a presos políticos.

Por decisão unânime (3 votos a 0), os desembargadores do TJ-SP negaram o recurso de Ustra. A sentença em primeira instância, proferida em outubro de 2008 pelo juiz Gustavo Santini Teodoro, da 23.ª Vara Cível do Fórum João Mendes, condenou Ustra pelas torturas sofridas por Maria Amélia de Almeida Teles, César Augusto Teles e Criméia de Almeida, em 1972, nas dependências do DOI-Codi de São Paulo.

No mesmo ano, em junho, Ustra foi condenado a pagar indenização de R$ 100 mil por ter participado e comandado sessões de tortura que mataram o jornalista Luiz Eduardo Merlino em 1971. Morreu em 2015 em decorrência de um câncer . Ele recorria das decisões judiciais.

Comissão da Verdade

Em maio de 2013, ele compareceu à sessão da Comissão Nacional da Verdade. Apesar do habeas corpus que lhe permitia ficar em silêncio, Ustra respondeu a algumas perguntas. Na oportunidade, negou que tivesse cometido qualquer crime durante seu período no comando do DOI-Codi paulista. Disse também que recebeu ordens de seus superiores no Exército para fazer o que foi feito e que suas ações à frente do órgão tinham como objetivo o combate ao terrorismo.

Última modificação emSegunda, 25 Setembro 2017 13:12

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