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Setembro Amarelo: como ajudar a prevenir o suicídio

Setembro Amarelo: como ajudar a prevenir o suicídio

Ao contrário do que muitos pensam, a última coisa que uma pessoa quer é se matar. E você pode ajudar a evitar isso, estendendo a mão amiga, ou simplesmente não compartilhando informações de suicídios. Nas páginas a seguir, saiba como o Acre enfrenta essa condição.

editorialNo Acre, a subnotificação de casos de pessoas que tentaram contra a própria vida ainda é um problema para que as causas sejam tratadas de forma adequada na rede pública de saúde. Com o início da campanha ‘Setembro Amarelo’, de prevenção a suicídio, a reflexão que se faz neste momento é a de que é preciso que o tema seja desmistificado. 

E a estratégia adotada pelo Núcleo de Prevenção de Suicídios, o NPS, do Hospital de Urgências e Emergências de Rio Branco, o Huerb, é a de abrir as portas para a sociedade civil e para representantes da área acadêmica e do Ministério Público do Estado do Acre, para que as políticas de prevenção sejam eficientes.

“A subnotificação, ou seja, os casos que chegam até nós no Huerb de tentativas de suicídios, mas que são ocultados, seja porque a família omite a informação que o caso não é de acidente, seja porque a própria vítima também não revela, prejudica o acompanhamento desses pacientes”, explica a psicóloga Andréa Vilas Boa, titular do NPS.

Desde que o Núcleo foi criado, em 2014, os seus profissionais vêm acompanhando e tentando identificar como tentativas de suicídio os casos que chegam ao Huerb.

Desse modo, em 2015, dos 238 acidentes diversos que chegaram ao Hospital de Emergências, pelo menos 184 passaram por alteração no sistema. Ou seja, foram subnotificados, embora posteriormente descobriu-se que se tratava de tentativa de suicídio. No ano passado, 191 casos deram entrada no Huerb, dos quais 144 deles também sofreram modificações no sistema para tentativa de suicídio.

Este ano, até o dia 28 de agosto último, pelo menos 148 casos tinham sido registrados.

“O número é alto, principalmente quando temos divulgações em massa na imprensa de casos de suicídios consumados. Daí a necessidade de a imprensa colaborar não divulgando detalhes de casos, nem a forma como essas pessoas comentem o suicídio”, frisa Vilas Boa.

A situação é preocupante e fez com que na segunda quinzena de agosto, acontecesse um debate promovido pelo Ministério Público do Estado do Acre, o MPAC, com a participação de profissionais de imprensa e de saúde. No centro das discussões, o desserviço que alguns jornais e sites locais prestam por conta da divulgação de mortes desse tipo.

Para o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Acre, Victor Augusto Farias, a maior dificuldade é a falta de uma legislação que ajude a entidade “a filtrar seus profissionais e punir quem se passa por jornalista”.

Na opinião de Farias, há pessoas nas redes sociais e nos sites de notícias que não fazem ideia de que divulgar suicídios é prejudicial, e que por isso, continuam disseminando essas informações.

“O Sindicato, desde o início do ano, também procurou possíveis parceiros para a tentativa de formar um ‘conselho de saúde’ aliançado com entidades públicas e privadas, mas não foi possível, pela burocracia das entidades que limitam-se ao diálogo”.

Ele acredita que é preciso uma regulação “quanto a blogs e mesmos sites que são manuseados, muitas vezes, por crianças de 10 anos que se autodenominam jornalistas”. “É preciso criar ferramentas que ajudem a responsabilizar essas pessoas. Do contrário, o jornalista sempre será inserido no mesmo saco”.

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Faixa etária está baixando e preocupa

Um fato assustador para os especialistas do Núcleo de Prevenção a Suicídios é que, se antes as tentativas de suicídios atingiam jovens e adultos, essa faixa baixou e fez com que acendesse a luz amarela entre os profissionais.

Agora, crianças entre 10 e 11 anos também estão passando por esse problema. “No início deste ano, registramos em um mês, quatro tentativas de suicídio nesta faixa etária”, explica Andréa Vilas Boa. No Brasil, são 27 mortes por dia, uma a cada 40 segundos.

Para a psicóloga titular do NPS, o tema deve ter um olhar diferenciado e merece atenção urgente pelo número crescente de pessoas que tentam tirar a própria vida.

As estatísticas mostram que entre o primeiro semestre de 2016 e o de 2017, houve um aumento no Acre de 32% nas tentativas. Em 2016, foram registrados 78, enquanto que neste mesmo período de 2017, os casos já chegam a 103.

Os atendimentos do plantão psicológico do Núcleo também mostram números impressionantes. De janeiro a julho, 352 pessoas recorreram ao tratamento psicológico, fugindo do suicídio. Em agosto, foram 81, perfazendo até o mês passado 433 pessoas atendidas pelos profissionais do NPS.

Centro de Valorização da Vida deve ser instalado no Acre para prevenir casos

O Centro de Valorização da Vida, o CVV, é ferramenta importante para que no Acre, os casos de morte voluntária fossem reduzidos. A ideia é defendida pelo NPS, e funciona como uma organização não-governamental.

Nesse caso, um número de três dígitos operado por voluntários devidamente treinados, atendem a pessoas que eventualmente estão propensas a cometer o suicídio.

Nas cidades onde foi implantado, o CVV conseguiu comprovadamente reduzir em até dez vezes o índice de suicídios.

Essa será uma ideia encampada também pelo MPAC para os próximos meses, segundo os membros do Parquet.

O que é o Setembro Amarelo

Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com o objetivo direto de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção. Ocorre no mês de setembro, desde 2014, por meio de identificação de locais públicos e particulares com a cor amarela e ampla divulgação de informações.

Debate no MPAC discute prevenção

O MPAC deu um passo importante rumo a criação de mecanismos que possam contribuir com a redução de suicídios no estado, ao promover debate sobre o tema com jornalistas, profissionais de saúde, professores universitários, representantes de igrejas, promotores e procuradores. 

A iniciativa, ocorrida no último dia 23 de agosto, foi da Assessoria de Comunicação do Ministério Público, chefiada pela jornalista Socorro Camelo, e coincide com a programação Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio, que deverá começar neste próximo mês.

“Queremos discutir a responsabilidade de um tema importantíssimo e tomar uma atitude para que tenhamos cada vez menos vítimas”, pontuou a procuradora Patrícia Rego, que coordena o Centro de Atendimento à Vítima, o CAV, uma divisão do MPAC que fornece todo o suporte necessário a pessoas vítimas de qualquer tipo de violência.

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“Desse encontro, enquanto MP, devemos sair com o dever de refletirmos sobre o quanto vamos ampliar esse debate, de quanto devemos nos mobilizar com a sociedade para ampliar as discussões”, ressaltou Patrícia Rego.

Mediado pelo procurador Sammy Barbosa Lopes, a ideia principal foi sensibilizar, por meio de palestras que trouxeram estatísticas e outras informações, sobre o quanto resguardar a vida é a tarefa de todos, sobretudo da imprensa. Segundo Barbosa Lopes, “o esforço de todos pela prevenção, ou seja, como cada um de nós pode contribuir, é a finalidade do encontro”.

Um dos pontos altos do debate foi a palestra da professora Juliana Lofego, da Universidade Federal do Acre, que discorreu sobre assuntos como o ‘direito à honra, à imagem e à vida privada em contraponto ao direito à liberdade de expressão’.

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Para Andreia Vilas Boa, não existe mente fraca, mas sim o preconceito em relação à doença e sobre saúde mental como um todo. “Precisamos ampliar a visão que temos sobre saúde, que não é somente física, mas também mental. Há todo um descuido em relação ao adoecimento da mente e as pessoas por preconceito dizem que é frescura, ‘piti’, falta de Deus, mente fraca, porque se ela for forte não cai em depressão”, diz.

Segundo Vilas Boas, esses mitos estão longe da verdade, pois a depressão é uma doença que precisa de cuidados e de apoio familiar.

imagem depressão 01Ela explica que os estágios da doença são classificados entre leve, moderado e grave. E quanto antes a pessoa pedir ajuda, mais rápido ela lida e controla os sintomas. No entanto, a psicóloga alerta que “nem todo mundo que tem depressão, mesmo em estado grave, tenta suicídio. Ela [depressão] é um fator de risco, mas não significa que quem a tenha vá pensar ou tentar tirar a própria vida”.

A profissional diz ainda que não podemos fazer uma relação direta entre depressão e suicídio, pois leva a pensar que todo depressivo irá tentar por fim a vida e não é assim. Existe quem possua a doença e não pense em fazer algo extremo.

“Para a psicologia, a tentativa de suicídio é um pedido de ajuda, uma sinalização de que alguma coisa não anda bem e não podemos negligenciar e banalizar a dor do outro. Cada pessoa tem um jeito de lidar com a dor”, disse Vilas Boas.

Suicídio e sua complexidade

De acordo com a psicóloga, entender suicídio não é fácil, pois cada pessoa tem um traço de personalidade diferente, uma história e dinâmica de vida familiar diferente. Tem pessoas que dão sinais, tem que tenha a ideação e siga um ritual: planeja tudo depois tenta. Tem outras que agem por impulso e numa situação de fragilidade emocional, mesmo que nunca tenha dito pensando em suicídio, acaba cometendo.

“Não há como tirar conclusões precipitadas, pois cada caso é um caso. Por isso a dificuldade no atendimento, porque você tem que entender aquela pessoa que está na tua frente para saber a partir dali como ajudar. Se as histórias, e o que leva ao suicídio é diferente a forma de tratamento também vai ser, o que funciona pra um pode não funcionar com outro”, explica a profissional.

Apesar de ser um tema ainda ignorado, Andreia diz que em Rio Branco tem uma abertura bem maior hoje, de quando o trabalho de prevenção foi iniciado, em 2012.

“No início, ninguém queria falar sobre isso, não queriam palestras, atualmente, somos procurados para ministrarmos capacitações. E estamos conseguindo lidar isso de uma forma melhor. É uma questão de saúde pública, que precisa de cuidados e estratégias de prevenção”, diz.Cuidado! Nem sempre tristeza é sinônimo de depressão

Segundo Vilas Boas, o termo depressão caiu no senso comum. As pessoas só estão tristes e já dizem serem depressivas, quando, na verdade, não são. Porque há uma diferença entre a tristeza do dia a dia e a depressão.

“Todos nós passamos por dificuldades e precisamos saber diferenciar quando uma tristeza do cotidiano não é mais normal e começa a fazer parte de uma doença. Fazer essa distinção não é simples, mas a tristeza corriqueira, normalmente é passageira, tem uma causa e é possível entender o motivo do sentimento. A tristeza da depressão não tem causa, a pessoa tem uma tristeza constante, acorda e vai dormir com aquela angustia sem uma causa definida. E se você conseguir perceber a tristeza está além do normal, causando alteração no apetite, no sono, no comportamento, preda ou ganho de peso e desanimo para trabalhar pode ser sinal de depressão”, conta Andreia, orientando que quem se sentir assim deve procurar um profissional para uma avaliação.

Crise de ansiedade é o mesmo que depressão?

Para essa dúvida, a psicóloga explica que quem tem crise de ansiedade não necessariamente tem depressão. Isso está relacionado a traços de personalidade, tem pessoas que são mais ansiosas, tem um ritmo mais acelerado. E na depressão também pode ser existir a ansiedade, irritação.

“Os transtornos mentais não são puros, não é só depressão, o diagnóstico é feito em cima dos sintomas que está trazendo mais dificuldade, mas não significa que ela não possa ter outros sintomas. Tem quem tenha depressão, mas pelo ritmo ou traços de personalidade mais acelerado pode ter depressão com sintomas ansiosos”, afirma Andreia.

De acordo com Vilas Boas, na crise de ansiedade a pessoa não tem alguns sintomas da depressão como a tristeza, angustia, não perde o prazer de viver, mas tem, às vezes, a sensação de que alguma coisa ruim vai acontecer e, como na síndrome do pânico, começa a ter dificuldade de ficar em locais fechados ou abertos com muita gente.

A psicóloga diz ainda que o bombardeio de informações tem influenciado no comportamento das pessoas, mas a depressão é um conjunto de fatores e vem crescendo ao longo dos anos por causa de um descuido com a saúde mental.

“Hoje, temos um reflexo de um descuido que há décadas vem acontecendo. Ainda não trabalhamos com prevenção, é raro alguém procurar um médico para fazer exame preventivo, sempre é quando já se sente alguma coisa, e na saúde mental, até pelos estigmas, preconceitos e dificuldade de diagnostico, é do mesmo jeito”, explica.

Desse modo, Andreia alerta para quem esteja sentindo sua saúde mental afetada que procure um profissional o quanto antes.

Falsa impressão de companhia

Com um mundo cada vez mais tecnológico ficar conectado a redes sociais e com a falsa impressão de companhia. Pode até está conversando com varias pessoas virtualmente, mas na realidade você não tem companhia.

“A tecnologia dá uma falsa impressão de proximidade, mas, na verdade, está cada vez nos distanciando mais. E isso pode ter uma influência nas relações e vejo que muitas pessoas com depressão se queixam de dificuldades nos relacionamentos interpessoais. Sentem-se solitárias, angustiadas e sem apoio. E isso pode ter relação com esse mundo corrido e tão materialista que vivemos hoje”, afirma.

Última modificação emSegunda, 11 Setembro 2017 13:29

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