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Entenda por que muitas vezes a morte de um bandido é motivo de comemoração

Entenda por que muitas vezes a morte  de um bandido é motivo de comemoração

A cena é a seguinte: o indivíduo entra na loja, alguns segundos depois saca um revólver e anuncia um assalto. Mas como no velho ditado que diz que ‘o risco que corre o pau, corre também o machado’, eis que a reação da vítima é a de ir para o ‘tudo ou nada’ com o bandido. E dessa vez, era o dia da caça. O ladrão foi morto. 

Foi exatamente isso o que aconteceu no último dia 22 de junho, em Rio Branco, durante uma tentativa de roubo a mão armada a uma joalheria do bairro Cadeia Velha. 

Mas afinal, a pergunta é: ‘Mesmo sabendo que não se deve reagir, estaria a sociedade cansada de perder para a criminalidade não só seus bens, mas também a vida?’

Nas redes sociais, centenas de comentários elogiando tal atitude nos leva a pensar quanto tem valido a vida. ‘Bandido bom é mesmo bandido morto?’

A reportagem do OPINIÃO ouviu pessoas que foram vítimas de roubos semelhantes ao narrado acima e traz um diagnóstico do que elas pensam, assim como a opinião de especialistas. Suas imagens foram preservadas. 

Só quem já esteve com uma arma apontada para si durante um assalto sabe os traumas que carrega consigo. É caso de Cleonice D’Ávila, que estava na parada de ônibus com duas irmãs quando dois assaltantes se aproximaram, colocaram a arma apontada para sua cabeça e levou os aparelhos celulares das três.

“Naquele momento é viver ou morrer, a gente nunca sabe se quando entregar o que querem eles vão embora e nos deixar vivo. Então acredito na legítima defesa”, desabafa.

Já Ivone acredita na acredita na transformação, no entanto se for para morrer que morra o bandido. 

“Tudo acontece numa fração de segundos e é um risco se arriscar e perder a vida. Mas antes morra o assaltante que a vítima”, afirma.

Por outro lado, os familiares de quem vive no mundo do crime também sofre. 

Gabriela Muniz perdeu um irmão a pouco mais de dois anos executado por um desafeto. E a família luta com irmão para tirá-lo dessa vida.

“Não sei por onde começar, não é fácil perder um ente querido e dormir com medo de perder o outro também. Já tentamos de tudo, internamos, conversamos, mas nunca viramos as costas pra ele. Imagino como seja difícil pra ele também, tem época que ele entra na igreja, participa de cultos, vai para encontros e depois cai nessa vida de novo”, desabafa.

Muniz conta ainda que não foi por falta dos cuidados da mãe que o irmão entrou no mundo do crime.

“Nossa mãe sempre fez de tudo para não faltar comida na mesa. Infelizmente parece algo que vem dele, nasceu com ele. Quando ele vai preso vejo alguns vizinhos comemorando. Assim como vi postagens, quando meu outro irmão morreu, onde as pessoas diziam ‘menos um’, isso dói”, diz Gabriela.

Leonir Silva, que perdeu dois irmãos, um por parte de mãe e outro por parte de pai, ambos com 19 anos, para o mundo do crime, diz que eles não eram vítimas da sociedade, mas sim um vício onde muitos adolescentes se perdem.                        

“Eles não eram bandidos, só se envolviam com pessoas erradas. Não eram de assaltar e nem matar, eram usuários e morreram por suas escolhas”, relata.

Diferente da mãe de Gabriela, a de Leonir passava a mão na cabeça do filho.

“Minha mãe lutou muito, até pra internarem ele, mas ele também passou muito a mão na cabeça dele. Talvez por medo de enfrentá-lo. O pai de um deles o abandonou quando pequeno e nunca ajudou ou se preocupou com a criação dele. Nós nunca o abandonamos e infelizmente o pior aconteceu”, conta.

Para Silva tão ruim quanto a dor de perder é ver a sociedade julgando como se ele não tivessem família.

“Todo mundo tem um história e nem todos que estão seguindo o caminho errado é abandonado por seus familiares. Mesmo assim, as pessoas julgam sem conhecer, esquecem que podia ser um parente delas, esquecem que por trás tem uma mãe enlutada”, desabafa.

Neuropsicologa FOTO JUAN DIAZ 2A morte do bandido pela vítima, segundo a neuropsicologia 

Para o OPINIÃO, a neuropsicóloga Jorgenilce Alves(na foto ao lado) traz uma análise desse fenômeno do ponto de vista da ciência comportamental. Veja na íntegra abaixo:

Essa questão me trouxe à memória o trabalho de pesquisa, de praticamente uma vida, do sociólogo e acadêmico da USP José de Souza Martins, sobre o Linchamento. Ele declarou em entrevista a uma rede de TV, que uma de suas maiores dificuldades foi ter acesso aos registros de casos de linchamento, porque não existem dados estatísticos oficiais uma vez que não existe o crime de linchamento, definido no código penal. 

A polícia quando é chamada para fazer as ocorrências desses casos não classifica como linchamento no registro oficial e sim como homicídio ou tentativa de homicídio, ou roubo. A caracterização de linchamento acontece depois, provavelmente pela presença de um número maior de pessoas envolvidas na ação. A única fonte que reconhece linchamento como linchamento é a imprensa. O que faz pensar se nas situações em que esse tipo de reação acontece com maior frequência não haveria mais de uma pessoa envolvida, além do criminoso e da vítima.

Outro aspecto que me fez lembrar dessa pesquisa que virou livro, Linchamentos - A Justiça Popular no Brasil, é que, de acordo com dados levantados por ele, o número de linchamentos vem aumentando significativamente nos últimos sessenta anos da história do Brasil, período histórico em delimitou sua pesquisa. E pela sua estimativa, entre um milhão a um milhão e meio de brasileiros comuns, cidadãos, trabalhadores, pais de família responsáveis, pessoas consideradas de bem, já participaram de um linchamento. Portanto a sua pergunta parece relevante e justificada.

Martins estabeleceu relações entre fatos políticos e históricos que teriam contribuído para o aumento dos casos de linchamento no Brasil, que se pode pensar também como mais uma das maneiras que a população encontrou para se defender por não se sentir segura. Mas não fez menção direta ao fato de que nesse mesmo período, com a evolução da tecnologia e dos meios de comunicação, o acesso da população à informação se tornou mais facilitado e aumentou significativamente.

 Tomando o caso do linchamento como exemplo, que são registrados oficialmente como homicídio da vítima pelo agressor por legítima defesa, mesmo não sendo algo recente na história da humanidade, o fato de vir se tornado algo cada dia mais frequente, parece estar relacionado à maneira como as pessoas percebem e se relacionam com as instituições públicas que regulam o sistema de justiça do país. Elas precisam confiar e acreditar na eficácia do aparelho do estado em garantir que aqueles que praticam os crimes sejam efetivamente julgados culpados e punidos de acordo com a lei, assegurando, assim, a aplicabilidade de modo formal e incondicional, para que se estabeleça a ordem pública.

Atualmente, o Brasil está entre os países onde mais ocorrem linchamentos no mundo. Há uma média de um linchamento por dia, segundo Martins, e esse número vem crescendo. Após quarenta anos de pesquisa nessa área, conclui, que, depois da Segunda Guerra Mundial surgiu o que passou a denominar Cultura do Linchamento no Brasil, o já que vem a ser um padrão de comportamento estabelecido dentro da sociedade. Através da observação e análise dos dados, conseguiu estabelecer relação entre aumento de ocorrências após o final de períodos de governos ditadores. Ao fim da era Vargas, mas, principalmente, após o período da Ditadura Militar, o Linchamento tornou-se uma prática cotidiana. 

Ainda de acordo com sua análise, quando as instituições não apenas falham em garantir a segurança, a ordem, e a paz, mas elas mesmas promovem o conflito e subvertem a ordem, o que acontece em situações de conflitos civis, nas guerras e nos regimes ditatoriais, o estado é o primeiro a extinguir direitos dos cidadãos, a começar pelo direito à liberdade. Nesses momentos de anomia, ou seja, de degradação, insuficiência e fragilidade das leis, ou ausência de normas sociais, as pessoas agem no sentido de repor a lei e a ordem, de reparar aquilo que o estado passou a lhes negar. É o que Martins chama de Justiçamento. Paradoxalmente, a violência praticada pelo estado nessas situações em que existe anomia, reforça o comportamento violento na população, que passa a se apropriar dos meios utilizados e aprendidos pelo estado, através do comportamento das figuras dos representantes da lei como autodefesa. É o próprio exercício da lei vigente internalizado, mas de um jeito totalmente distorcido e patológico.

Prova disso, é que durante a Ditadura Militar no Brasil, um grupo de justiceiros autodenominado esquadrão da morte ganhou força, fama e popularidade por eliminar criminosos que escapavam da justiça em decorrência da morosidade e fragilidade da lei. E depois descobriu-se que os líderes e maiores integrantes do esquadrão da morte eram da força policial.

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