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Programa Quero Ler: a persistência pelo aprendizado que transforma vidas

Programa Quero Ler: a persistência  pelo aprendizado que transforma vidas

Aos 30 anos, Sandra Apurinã firma o giz nas mãos para, com orgulho, escrever seu nome na lousa de uma das salas de aula do programa Quero Ler. Um ato simples, mas que para a amazonense, natural de Pauini, é uma conquista.

Sandra conta que não estudou na infância porque perdeu a mãe ainda criança. O pai era alcoólatra. Com a vida familiar desestruturada, foi crescendo na casa de outras pessoas, auxiliando em serviços domésticos e longe da escola. “Saí de casa cedo para morar com meu ex-marido”, relembra a indígena.

Aos 14 anos, a indígena casou. “Ainda tentei estudar uns dias, mas meu ex-marido era muito ciumento, então parei”, explica a estudante.

Sandra fugiu do ex-marido e veio morar no Acre. “Meu ex-marido era ciumento demais e eu estava numa situação difícil. Meus filhos ficaram com os avós”, detalha.

Depois que se mudou para Porto Acre, a dona de casa decidiu voltar a estudar, mas confessa que mais uma vez deixou a escola. Dessa vez, o alcoolismo foi o que a distanciou da vida estudantil. “Eu bebia demais. Não deu certo também.”

A história de Sandra Apurinã tomou novos rumos quando ela se mudou para Rio Branco e conheceu a professora Creuza Crispim. “Vim trabalhar na casa de uma mulher e o filho da minha patroa conhecia a professora Creuza. Ele perguntou se eu queria estudar e eu disse que sim”, conta.

Mas a ex-doméstica admite que faltava muito às aulas e, mais uma vez, não aprendeu a ler e escrever.

Escrevendo novos sonhos    

Em 2016, enfim, tomou a decisão de priorizar sua alfabetização. “Eu pensei: Sou nova, tenho 30 anos e preciso aprender a ler e escrever”, ressalta a estudante.

Creuza Crispim, professora da rede de ensino do Estado, começou a dar aulas aos 14 anos, quando morava em Belém (PA). Depois, fez Magistério e ao concluir, seguiu para a formação em nível superior em Matemática. “Ela é uma professora muito boa. Dou graças a ela por estar aprendendo”, enaltece a estudante.

Sandra enfrenta uma luta diária para priorizar seu aprendizado. Casou-se novamente e teve mais duas filhas. As aulas de sua turma no Quero Ler iniciam por volta das 19h, mas antes ela precisa deixar a casa e o jantar da família pronto. Ela leva para aula a filha Adrielle, de 5 anos, enquanto a outra, Viviane, 3 anos, fica com o esposo, em casa.

“Estou vivendo o momento mais feliz da minha vida porque estou aprendendo. Já consigo assinar meu nome. Se eu for ao Terminal, sei que ônibus pegar. Dia desses, o pessoal [agentes de endemias] que faz a fiscalização da dengue foi lá em casa e, depois da visita, eles pedem para a gente assinar. Eu consegui assinar meu nome todo. Estou muito feliz mesmo. No último ano avancei mais. Tem palavras que eu já sei”, garante a dona de casa.

Aos 30 anos, Sandra revela que não pretende mais parar de estudar e nutre sonhos de um futuro melhor.

“Meu sonho é passar disso aqui e terminar. Eu falo para o meu marido que não vou mais parar. Ele diz que não vai cuidar de menino, mas eu digo ‘você vai cuidar’. Me arrumo e venho para a aula. Meu futuro é o estudo. É o que eu tenho. Antes, eu não pensava assim. O marido hoje está comigo, amanhã pode não está. Meu futuro é para os meus filhos e, mais na frente, espero arrumar um emprego”, anuncia a estudante.

Força tarefa contra o analfabetismo  

O programa Quero Ler, do governo do Acre, executado pela Secretaria de Estado de Educação e Esportes (SEE) iniciou sua segunda etapa em março deste ano com 8.008 alunos em sala de aula, de acordo com Evaldo Viana, secretário adjunto da Secretaria de Educação e coordenador do programa.

“Este mês vamos iniciar mais uma etapa do programa. A previsão inicial era de 12.700 alunos, mas nós já estamos com 14.705 alunos. Em setembro, começa outra etapa de 10.450 alunos. Em fevereiro de 2018, terá início à última fase, com 9.055 alunos”, anunciou o coordenador.

De acordo com Evaldo Viana, ainda serão incluídos também alunos de mais uma etapa do programa Brasil Alfabetizado, cerca de 8.500 alunos. “Para chegar aos 60 mil alfabetizados, meta estipulada pelo governador Tião Viana, ficam faltando mais 2.604 que serão alfabetizados pelos municípios”, completou o gestor.

O secretário adjunto observou que a expectativa do Estado era que se chegasse ao número máximo de 50 mil alunos alfabetizados, porém essa meta foi ultrapassada.

Tião Viana pontua que mesmo diante da crise financeira, o Acre tem investido mais de R$ 26 milhões na Educação pública visando à alfabetização de jovens e adultos.

“O programa Quero Ler é a maior força-tarefa que nós já assumimos como desafio para a educação no Estado. De todo o esforço, de toda grande transformação que a educação do Acre vem passando nos últimos 16 anos, nós temos agora força tarefa para zerar o analfabetismo no Acre”, enfatizou o governador.

A proposta do Quero Ler é dar às pessoas com idade a partir de 15 anos as condições de conhecer as letras, para que possam ler e não sejam analfabetos funcionais.

Tião Viana frisa que isso permite que os alfabetizados possam acreditar mais em si, aumentando a autoconfiança, melhorando suas oportunidades para pensar em trabalho, renda, qualidade de vida e entender melhor os desafios dos tempos atuais.

A determinação de quem decidiu vencer o tempo

O governador enaltece o trabalho dos educadores e a força de vontade e confiança dos alunos que se dispõem a sair de suas casas todas as noites para participar das aulas. “A leitura é algo revolucionário na vida das pessoas. Obrigado aos mais de 14 mil alunos do Quero Ler e aos mais de mil professores que nos ajudam a vencer esse desafio”, agradeceu.

A mesma gratidão que Tião Viana expressa pelos educadores, o pedreiro Adair do Nascimento, 53 anos, também revela ter pela professora Maria do Socorro.

Adair já está alfabetizado, mas antes de chegar ao mundo das letras e números passou por situações que o constrangeram por não saber ler e escrever. Dentre tantas, uma foi determinante para que ele tomasse a decisão de buscar a alfabetização.

Ele conta que um dia precisou participar de uma audiência no Fórum da capital. Na ocasião, precisou utilizar o elevador, mas como não lia, contou com auxilio de uma mulher que estava no local.

“Eu entrei com ela no elevador e quando ela desceu, sai seguindo-a pelo corredor. Numa certa altura, ela me parou, me olhou e pediu minha identidade”, relata o pedreiro.

Ao olhar o documento de identificação, a mulher notou que Adair do Nascimento não era alfabetizado.

“Ela virou para mim e disse: ‘O senhor estava entrando no banheiro feminino junto comigo. Mas pelo que vi o senhor não sabia disso. Não sabe ler o que está escrito nessa porta’. A mulher era juíza. Poderia ter me prendido. Ela foi educada e me levou até a sala da audiência. Nunca senti tanta vergonha. Daquele dia em diante, resolvi que ia estudar”, expôs Adair do Nascimento.

Promessa feita, promessa cumprida. Adair matriculou-se na escola e começou a estudar. Hoje ele é o aluno com mais frequências nas aulas de uma das turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), na Escola Professora Raimunda Para, na Cidade do Povo.

“Venho para a aula mesmo com febre, doente. Sei que se eu perder qualquer aula, vou sentir falta no outro dia. Já sei ler, troquei minha carteira de identidade por uma que tem meu nome assinado e sei fazer contas”, indica Adair mostrando seu caderno com cálculos de soma e subtração.

A professora do pedreiro atesta: “Se olhar a caderneta, ele tem todas as presenças. Nem mesmo o cansaço do dia de trabalho vence a vontade dele. Para um professor isso é gratificante de ver. Já o vi aqui com febre, cansado, mas ele estava focado na aula para sempre aprender mais”, conclui a professora Maria do Socorro.

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