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Política. Estrutura. Escola. Gramática

Lecionei no Acre durante 20 anos e vivenciei, nesse tempo, a escola pública antes e depois do Partido dos Trabalhadores. Não voto no PT. Defendo nenhum partido. Defendo ideias. Então, se escrevo para afirmar que a educação acriana ficou melhor por causa do PT, é porque eu estava com meus alunos em sala de aula desde o governo de Jorge Viana.

Em grego, cidade é “pólis”, a mesma raiz de (polí)tica, que significa “muitos, diversos, múltiplos”, ou seja, “pólis” tem a marca das diferenças, a marca de valores não semelhantes. Já a raiz grega “-tica” nos remete “ao que é comum, ao que deve ser igual a todos”. “Política”, portanto, é palavra com dois significados que se contradizem (unidade e multiplicidade), mas que se complementam. Buscar encontrar a unidade na multiplicidade, esse é o sentido original da palavra política.

Embora seja um dos lugares em que as diferenças se manifestam por meio de comportamentos, de ideias, a escola tem de buscar sua unidade pedagógica, o que não significa excluir a multiplicidade. Nesse sentido, quando ela vota para escolher o diretor, a escola é política, sua democracia é política. Mas por que meio se manifesta a democracia escolar?

Pergunto porque, antes da relação entre direção e corpo docente, o diretor foi escolhido por meio de uma relação democrática, e eu vi de perto muitas vezes o que é a democracia escolar do Acre. E aí retorno à minha pergunta: por qual meio coloca-se o professor ou a professora na direção escolar? A resposta só é esta: estrutura.

Por causa do limite de linhas, evidente que este artigo não é o espaço mais apropriado para pensar o conceito de “estrutura”, mas podemos afirmar que ele não tem nenhuma relação com formalistas russos, com superestrutura e infraestrutura do marxismo, com a obra “As estruturas elementares do parentesco”, de Claude Lévi-Strauss, ou ainda relação com o belo livro “A reprodução”, de Pierre Bourdieu. O conceito de estrutura a que me refiro se enlaça com a segunda fase de Bourdieu, com o segundo Wittgenstein, com as páginas de “O aberto”, de Giorgio Agamben, quer dizer, sem nenhum vínculo com o mecanicismo, estrutura é o que a filosofia pensa sobre “movimento”, ou seja, é e não é, enfim: estrutura é abertura.

A atual estrutura que organiza e movimenta as relações humanas no processo democrático escolar assemelha-se à democracia que vota em vereadores, deputados, isto é, a estrutura democrática escolar não permite qualificar o ensino público, porque ela é feita para não escolher o melhor. Como eu disse antes que a estrutura é aberta, pode ocorrer que em alguma escola ou em algumas escolas o voto escolha o melhor candidato à direção; isso, no entanto, não tem predominado. A regra tem sido brigas, tumultos, xingamentos, interesses de professores contra outros interesses de professores; a regra tem sido a antipatia pessoal de aluno ou de funcionário por este ou por aquele professor. Isso ocorre porque a estrutura, subjacente às falas e às relações humanas, permite que o tumulto ou o superficial se manifeste, impedindo a presença de diálogos muito qualificados a fim de que problemas e soluções sejam pensados com elegância e profundidade.

Pergunta-se: é regra na escola pública acreana haver diálogo entre candidatos a diretor sobre o aluno escrever bem? é regra entre candidatos nessa democracia escolar haver diálogo sobre prática de leitura em sala? é regra debate sobre sala de leitura? Pergunto porque pertence à natureza mais elementar da escola ensinar muito bem o aluno a escrever e a ler. A democracia escolar hoje escolhe o melhor candidato para que o aluno escreva e leia bem?

A mais absoluta ausência dessas perguntas na atual estrutura democrática da escola teve como resultado, por parte da Secretaria de Educação do Acre, a retirada do estudo de gramática e, em seu lugar, gêneros textuais. Leciono Língua Portuguesa há mais de anos, mas foi a minha formação em Filosofia que aprofundou a ideia de quanto a gramática é importante para escrever e ler bem.

Se a democracia escolar não aprofunda problemas e soluções de escrita e de leitura, a secretaria retira da escola a gramática, o que é uma insanidade, pois retirar a gramática da Língua Portuguesa assemelha-se a retirar os números da matemática; assim como a matemática, gramática é estrutura. Em seu livro “Antropologia estrutural dois”, Claude Lévi-Strauss afirma na página 133: “a estrutura é o próprio conteúdo”. Ora, se ele escreve isso, é porque a base do antropólogo Lévi-Strauss é filosófica. Em “Mito e significado”, ele registra na página 23: “falar de regras e falar de significado é falar da mesma coisa”. Por si mesma, a Língua Portuguesa não tem como entender essa relação entre estrutura e conteúdo, precisando, pois, dialogar com a Filosofia.

É o filósofo Jacques Derrida quem pensa o conceito de “desconstrução” e, uma vez pensado pela filosofia, é transferido para outras disciplinas, por exemplo, para Língua Portuguesa. Eu disse “transferido”, e não “pensado” pela Língua Portuguesa. A ideia de o aluno não estudar gramática na escola é consequência da filosofia derridiana, só que o conceito de desconstrução na filosofia foi deformado quando caiu de paraquedas na boca de professores formados em Letras e na Secretaria de Educação do Acre.

Aldo Tavares é graduado em Letras, pós-graduado em Pedagogia e mestre em Filosofia

 

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