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Roland Barthes, morte e o review da vida

O teórico francês Roland Barthes afirma em um dos seus textos que o trauma é aquilo suspende a linguagem e bloqueia a significação. O trauma, para o teórico e ensaísta francês seria o grau zero da imagem, aquele sobre o qual não se há nada a dizer, sobre o qual não há outra leitura da imagem senão o estar-ali dela, mais nada. 

Imagem ou não, os traumas, o trauma da morte nos coloca no plano dos objetos tais quais eles são, objetos, sem o revestimento do olhar que os colore ou desejo de vê-los como parte de nós. Porque a morte é o silêncio de todo os desejos; mais do que aniquilamento da carne, a morte é a suspensão de todas as aspirações. É o limite zero para além do que nada sabemos, pois saber já é significar.

A morte é a insignificância, o desconhecido: o incógnito e o insólito para além do sentido. É o medo de acordar no meio do sono e sentir o peso do real. Porque o sonho nos leva para uma outra dimensão da vida em que podemos ser plenos, paradoxalmente mortificados pelo ato de dormir.

Com a morte, percebemos que a vida que envolve as coisas e insufla os seres, é a nossa vida – o sentido pleno – e, se eles morrem, é um pedaço de nós que fenece também porque é uma parte de nosso mundo construído, que se esvai, que se apaga sem deixar rastros de vida. A única pista da morte é um corpo que já não nos diz mais nada. É a total incongruência da vida, uma vez que viver também é estar incorpóreo, sem que o corpo saiba que está porque no corpo há também consciência.

Lidamos em nosso dia a dia sempre com “pequenas mortes” porque as ausências e as despedidas, ainda que por um curto espaço de tempo, são “pequenas mortes”, mas sabemos que essa falta pode logo ser demovida pela presença repentina, pela volta, pelo review, por um olhar para trás da paisagem que se esvai. E assim eu posso contemplar uma imagem na tentativa de suprir uma falta – esse vazio que o tempo diz preencher pelas camadas diárias de esquecimentos (bons?!)

Com o tempo – e só tempo – o desejo investe nas linguagens, nos objetos e em tudo; a imagem esmaecerá e a planta florescerá, ainda que ela seja somente uma planta, e a beleza dela esteja somente no sentido que se pode dar à vida, pelos sentidos, ou ainda que ela seja bela e com sentido para a natureza, a despeito de todos nós.

*Milton Chamarelli Filho Professor do Curso de Jornalismo da UFAC

 

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