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Por que somos alvo de gozação?

Por que algumas potências estrangeiras nos consideram alvo de gozação? Afinal, nossos povos sobreviveram a 500 anos de exploração e racismo, incluindo os dois recentes séculos de neocolonização e rapina. Embora não conseguimos abolir a escravidão, pelo menos fomos capazes de não sermos totalmente aniquilados por ela. Se as potências imperialistas e mafiosas desprezam nossa condição de miseráveis, de não ser 100% brancos e de cultuar uma espécie de paganismo, pelos menos poderiam respeitar nossa resiliência.

Faço esta reflexão com base numa proposta feita pelo ministro da Justiça da Itália, Andrea Orlando, relativa ao caso Battisti. (abaixo, uma foto recente. Ele não usa sempre esse chapéu; só para seus admiradores sul-americanos).

Primeiro, vou fazer uma síntese biográfica. Figuras políticas como Orlando e também os ex-premiês Letta e Renzi, e o atual premiê Gentiloni pertencem ao chamado Partido Democrático (PD), que surgiu em 2007 como um amplo leque que incluía o autodenominado Partito Democrático Della Sinistra (PDS). O PDS, por sua vez, foi criado em 1991, como resultado final do vigésimo congresso do Partido Comunista Italiano (PCI) em 1991, quando se produziu uma grande divisão.

Fazendo um flashback:

O PCI havia sofrido importantes perdas de seus setores de esquerda desde 1978, quando se foi aproximando da centro direita e, posteriormente, da direita. Muitos de seus membros se transformaram em gruppettari, ou seja, membros de grupos antiburocráticos enraizados nas classes populares, alguns dos quais eram armados (como o grupo PAC, ao que pertenceu Battisti), mas outros se mantiveram na linha de ação social, humanitária e cultural desarmada.

Todos eles, porém, estavam incluídos no movimento chamado de maneira genérica Autonomia, e eram bem diferenciáveis das Brigadas Vermelhas, cujo objetivo era a toma do poder no estilo das guerrilhas da América Latina. É necessário enfatizar esta diferença, porque a propaganda da direita, a ambos os lados do Atlântico, confunde, de maneira inocente ou proposital, as Brigadas Vermelhas com os sistemas de autodefesa armada de alguns grupetti. Todos os grupos tinham em comum a luta contra o fascismo, a violência prisional, a exploração econômica e a discriminação sexista e racial.

Em 1991, quando se realizou o 20º congresso, o CPI conservava ainda uma minoria de esquerda, que recusou somar-se ao PDS e construiu o partido da Rifondazione Comunista. Durante algum tempo, porém, o PDS teve alguns quadros que conservaram certa identidade de esquerda, mas seus médios e altos dirigentes eram claramente pós-stalinistas e totalmente devotados à repressão da esquerda. Para eliminar essa ambiguidade, o PDS se desvencilhou de seu adjetivo (agora apenas metafórico) “della sinistra”, e em 2007, junto com os restos da direita democristã e com os neoliberais, gerou o novo Partido Democrático (PD).

Carlos Lungarzo é doutor em Ciências Exatas e em Ciências Humanas. Publicou 11 livros sobre lógica, estatística e sociologia matemática, e 86 artigos especializados. Foi professor da UNICAMP (1976-1997), da UERJ (2000-2004) e da McGill University.

 

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