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Amar a cidade: uma prerrogativa da vida pública

As coisas não andam muito bem mesmo na cidade. Há uma polarização que está levando tudo para o brejo. E não é de agora. Já Platão, em sua República, lamenta essa situação que beira a guerra civil: é quando a cidade se divide e ambos os lados devastam os campos uns dos outros e incendeiam as casas inimigas. Nesse cenário, nenhum dos dois lados pode se dizer amante da cidade, pois, segundo o filósofo ateniense, se assim fossem, “não ousariam secar sua nutriz e mãe”. A referência é forte: remete ao amor maternal e à imagem atávica do seio traído pela criança. Amor pela cidade e amor pela mãe coincidem. A vida da comunidade é o que está em jogo.

A necessidade de uma refundação ética da política é provavelmente o desejo e o anseio da grande maiorias da pessoas. Platão parece ecoar em seu tempo o mesmo, e clama por algo que somente nosso inveterado cinismo nos levaria a considerar naïf: é preciso que os que se dedicam à política se demonstrem amantes da cidade. Mas um amor sério, que deve ser colocado à prova, seja nos prazeres ou nas dores, com tal fidelidade que nem o cansaço, o medo ou outra vicissitude seja capaz de perturbar.

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“A necessidade de uma refundação ética da política é provavelmente o desejo e o anseio da grande maiorias da pessoas”

Não basta declarar esse amor: é preciso prová-lo. Para Platão, o que deve ser provado é o zelo para com a cidade: o termo grego que indica este zelo é a kedemonia, que significa tanto “tomar conta de” alguém como indica o casar, o matrimonio. É amor mesmo. A descrição deste amor assume conotações de alto romantismo e recalca extraordinariamente a experiência do amor interpessoal. Para o filósofo ateniense, os governantes devem amar acima de tudo aquilo que é vantajoso não apenas para si próprio, como também para os outros.

Escolha impossível?

Platão nos fornece um critério claro de escolha dos governantes: aqueles que, após exame, “resultem determinados no mais alto grau, para a vida toda, a fazer o que considerarão vantajoso para a cidade, e que de maneira alguma aceitem fazer aquilo que não o é”. A prova de amor do político – por assim dizer – se resume então à capacidade de fazer coincidir o interesse individual com o interesse da cidade, o privado com o público, para usar uma terminologia mais contemporânea.

Mas isso não seria irremediavelmente idealista e irreal? A politica não seria exatamente o reino do pragmático e do hiper-realismo? Provavelmente sim. Mas… e se encontrássemos alguém assim?

Mesmo nesse caso, Platão ainda não parece satisfeito, provavelmente por ser mais realista politicamente do que a tradição lhe concedeu. Pois sabe que este amor pela cidade é sujeito continuamente a perigos, e que, portanto, a manutenção de governantes éticos é resultado de um investimento constante de toda a sociedade. Por isso, aconselha Platão: “parece-me que se deva mantê-los em observação em todas as idades, para verificar se são capazes de manter esta fidelidade e não arrisquem, por efeito de encantamento ou de constrição violenta, abandonar, deixando-a cair no esquecimento, a opinião de que se deva fazer somente o melhor para a cidade.”

Já nos primórdios da democracia, Platão intuiu que é preciso não só saber escolher bem nossos governantes, mas também prepará-los para isso e mantê-los sob vigilância constante. Para aquele que primeiro observou que a democracia podia degenerar em anarquia, era claro também que o mais bem-intencionado dos políticos corria o risco de se tornar um canalha da pior espécie.

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