Reportagem Especial

Rio Branco, 15 de outubro de 2017

Ser down é up O mercado de trabalho e a inclusão de jovens com trissomia

Contrariando preconceitos e a todas as probabilidades negativas, uma nova geração de pessoas com Trissomia, a condição biológica dos que possuem a síndrome de Down, avança nas relações sociais graças à legislação trabalhista, e principalmente, a instituições públicas como a Assembleia Legislativa do Estado do Acre, a Aleac, para mostrar que são tão capazes de desempenhar funções no trabalho quanto outra pessoa dita ‘normal’.

 

Se você sempre pensou que ter Down era um carma familiar, pois é hora de mudar seus conceitos, e sobretudo no Acre, uma revolução está em curso nas relações profissionais com a inclusão dessas pessoas. É o que você vai ver nas próximas linhas.

Texto: Resley Saab || Fotos:Juan Diaz || Diagramação: Adaildo Neto

Missão: romper limitações e garantir a oportunidade da cidadania

No filme nacional ‘Colegas’, de 2012, o diretor e roteirista Marcelo Galvão mostra a trajetória de três amigos que vivem num orfanato para pessoas com síndrome de Down e a vontade deles de realizar sonhos. Enquanto Márcio quer ver o mar, Aninha deseja casar-se no dia de São Judas Tadeu e Stalone, voar, simplesmente.

 

Os três conseguem fugir do abrigo para viver uma aventura mundo afora, em cenas engraçadas como a de Márcio, que ao paquerar uma mulher numa festa, ouve dela “você não percebe que a gente é diferente? ”, ao que ele responde “não tem problema, eu gosto de gorda”.

 

O bom humor e a espontaneidade da obra lembram um pouco o cotidiano de pessoas como a servidora pública Seleny de França Vieira, de 32 anos. Diagnosticada com Down, ela foi contratada no início deste ano pela Assembleia Legislativa do Estado do Acre, a Aleac, num programa inédito de valorização das pessoas com trissomia no serviço público. Um dos idealizadores foi o próprio presidente da Aleac, o deputado Ney Amorim, que também tem um filho com trissomia.

 

Antes, no Acre, apenas empresas privadas, a maioria supermercados de Rio Branco, chamavam portadores de Down para trabalhar, em sintonia com a legislação trabalhista brasileira.

 

A Aleac, no entanto, rompeu com essa tendência ao chamar, além de Seleny, que atua no setor da Recepção, o Francisco. Recrutado para a sala do Protocolo desde o início do ano, Francisco das Chagas da Silva Correia, de 39 anos, alegra-se de estar sendo útil. “Eu gosto do que eu faço. Todo dia, carrego muitos documentos para as salas. E agora só está me faltando uma namorada”, brinca.

 

Aliás, dessa última questão Seleny não pode reclamar. Conta ela ao OPINIÃO que tem um namorado. “Ele se chama Júnior e é muito carinhoso. Meu namorado é uma das razões do meu viver”, diz, sem, no entanto, deixar de incluir o emprego na Aleac no topo da lista das razões da sua existência.

 

Ao ser perguntada sobre que horas chega para trabalhar, Seleny é enfática: “Tenho de estar aqui às 7h01 e nenhum minuto a mais. Meu compromisso com o horário é muito sério”.

E ela cumpre à risca o que promete? Sem dúvidas, dizem os colegas de trabalho. A forma como Francisco e Seleny desempenham suas funções impressionam até mesmo os demais colegas no ambiente de trabalho, e a aptidão para obedecer a procedimentos administrativos, cumprindo tarefas de média complexidade desfaz o mito de que as pessoas com Down não conseguem acompanhar de forma satisfatória a jornada de um indivíduo dentro do que é considerado um padrão normal, por assim dizer.

“Não há nada de anormal numa pessoa com trissomia, que não seja a própria síndrome. Por isso, eu digo: O Down é Up, ou seja, é para cima, é otimista e especial no sentido de não precisar que seja especial. Porque ahá dentro dessas pessoas habilidades incríveis que compensam o grau de deficiência cognitiva que carregam”, ressalta a psicóloga Fernanda Saab, que já trabalhou no atendimento a pessoas com síndrome de Down no Colégio Dom Bosco, instituição especializada em educação inclusiva.

 

E completa: “Daí o papel grandioso de instituições como a Assembleia Legislativa, ao oferecer oportunidades preciosas de trabalho”.

 

As palavras da profissional são endossadas pela policial legislativa Francisca das Chagas Costa da Silva, de 48 anos, dos quais 30 deles dedicados à segurança da Aleac. Afirma ela que não há praticamente diferença nas relações de trabalho entre Seleny e os demais servidores.

 

“Foi uma decisão muito bem acertada o que a gestão [do presidente Ney Amorim] fez porque pode servir de exemplo para outras instituições fazerem o mesmo. Eu, pessoalmente, acho o máximo eles terem chegado para somar com a gente”, pontua a servidora da Assembleia.

Deputado Ney Amorim, presidente da Aleac, em postagem em que homenageia pessoas com a Trissomia

Cidadãos Down com vida saudável, fazendo escolha, concretizando metas. Eles não são diferentes, eles fazem a diferença!

Nas redes sociais, o poder da Mulher-Maravilha

No seu perfil do Facebook, um pouco da expressão mais poderosa de Seleny é perceptível quando ela posa ao lado da heroína dos estúdios Marvel, a Mulher-Maravilha. A foto, feita momentos antes de entrar no cinema, retrata uma pessoa extrovertida e despojada de qualquer sentimento negativo.

 

A própria mãe, a professora Suely Franca, se entusiasma com o lado criativo da filha, que adora pintar quadros e ir para o trabalho. O carinho que os amigos têm por Seleny é diretamente proporcional à sua felicidade.

 

Rolando a sua timeline é possível encontrar inúmeras demonstrações de carinho, tanto dela mesma para com as outras pessoas, quanto das pessoas de seu convívio, na família e no setor de trabalho.

 

Mas a imagem que mais emociona é a que ela posa com o namorado Júnior. Veja a galeria de fotos:

Suley Sampaio Franca, mãe de Seleny, em postagem recente no Facebook

Jornais doados pelo Legislativo viram cestas para decoração

 

Olha ela aí! Graças a Deus, mais um dia de trabalho, feliz da vida. Acho que é um dos poucos trabalhadores do Brasil que não suporta os feriados. Fica chateada. Kkkkk

No Centro de Atendimento Educacional e Especializado Dr. Augusto Chalub Leite, no conjunto Esperança, cerca de 300 alunos, com algum grau de deficiência física ou cognitiva assistem às aulas dos professores. Artesanatos com jornais, aulas de música e de fabricação de tapetes em tecido estão incluídos no pacote da felicidade para alunos de zero a 75 anos.

 

O centro é subordinado à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, a Apae, e conta com um grande galpão onde acontecem as aulas de artesanato. Na estante, pelo menos meia tonelada de jornais, que são doados pela própria Aleac, compõe o estoque de papel para a fabricação de cestas de decoração.

 

Professora Ana Bessa de Holanda, 49 anos, e tia de portador de Down

É para lá que Seleny e Francisco, os funcionários da Aleac, cujas histórias você leu mais acima, nesta reportagem, se deslocam todas as sextas-feiras.

 

“Aqui, eles continuam os estudos e podem se aperfeiçoar ainda mais”, explica a professora Ana Bessa de Holanda, 49 anos e 33 de docência. A professora afirma que ao contrário do que muitos pensam, pessoas com Down são lúcidas e possuem muita facilidade de aprender.

‘O aprendizado deles [portadores de Trissomia] é também o nosso, porque eles têm muito a nos ensinar também. As pessoas tendem a achar que eles são incapazes para tudo, o que é uma grande inverdade.

“O que a Assembleia faz é uma obrigação social”, elogia o MPT/AC

 

O Ministério Público do Trabalho no Acre, o MPT/AC, é hoje um dos maiores incentivadores de inclusões profissionais como as adotadas pela Assembleia Legislativa do Estado do Acre.

 

O órgão criou a Coordenadoria de Promoção de Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho, a CoordIgualdade, que no Acre está sob a liderança do procurador do Trabalho Anderson Luiz Corrêa da Silva.

 

Ao OPINIÃO, Corrêa da Silva ressalta que “a obrigação das empresas de contratar pessoas com deficiência é legal. Mas com relação à Aleac, esta mesma obrigação, ela é social”, pontua em tom elogioso.

Toda empresa tem uma cota específica que precisa ser cumprida, porque trata-se da legislação que determina, e o Ministério Público do Trabalho tem o dever de promover igualdade de oportunidade nas relações de trabalho

Anderson Luiz Corrêa da Silva, procurador do Trabalho no Acre

O Ministério Público do Trabalho anuncia para o próximo dia 25 deste mês, em Rio Branco, o Dia D da igualdade no trabalho, a ser realizado no auditório do Serviço Social do Comércio. O evento tem o apoio também do Ministério do Trabalho e do Emprego no Acre e grandes e médios empresários foram convocados.

 

No encontro, o MPT/AC deverá esclarecer a leis 8.112, de 1990, e 8.213, de 1991, que tratam da regulamentação de trabalho, não só para pessoas com deficiência física ou cognitiva, mas para transgêneros e outras minorias.

Fique por dentro da legislação trabalhista

A Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990

 

Artigo 5o - São requisitos básicos para investidura em cargo público:

 

Parágrafo 2o - Às pessoas portadoras de deficiência é assegurado o direito de se inscrever em concurso público para provimento de cargo cujas atribuições sejam compatíveis com a deficiência de que são portadoras; para tais pessoas serão reservadas até 20% das vagas oferecidas no concurso.

......................................

 

A Lei nº 8.123, de 24 de julho de 1991

 

Artigo 93 – A empresa com 100 ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% a 5% dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência, habilitadas, na seguinte proporção:

Empregados

 

Até 200.................................................2%;

De 201 a 500.....................................3%;

De 501 a 1.000..................................4%;

De 1.001 em diante.......................5%.

 

Entenda o que é a Trissomia

A Trissomia é a condição de um núcleo, célula ou organismo no qual um dos pares de cromossomos homólogos apresenta um cromossomo a mais [É causadora de diversas anomalias em humanos, tal como a síndrome de Down. ].

 

A existência de um cromossomo extra faz com que sejam somando três do mesmo tipo. Por isso, o nome ‘trissomia’. A mais comum em um recém-nascido é a trissomia do cromossomo 21 (três cópias do cromossomo 21).

 

A trissomia do cromossomo 21 causa cerca de 95% dos casos de síndrome de Down. Assim, a maioria das pessoas com síndrome de Down tem 47 cromossomos.

 

As 5% de pessoas remanescentes com síndrome de Down têm 46 cromossomos, mas o cromossomo 21 extra está incorretamente unido a outro cromossomo (o que se chama translocação), criando um cromossomo anormal, mas não extra. O cromossomo extra pode vir do pai.

 

Contudo, mães de mais idade, especialmente aquelas com mais de 35 anos, contribuem mais comumente com o cromossomo extra.

 

Ainda assim, uma vez que a maioria dos nascimentos ocorre em mulheres mais jovens, somente 20% dos bebês com síndrome de Down nascem de mães com mais de 35 anos de idade.

 

Mulheres com síndrome de Down têm 50% de chance de ter um filho com síndrome de Down. Contudo, muitos fetos afetados são abortados espontaneamente.

 

Fonte: Organização Mundial da Saúde

O site www.jornalopiniao.net  é uma publicação da Acre Publicidade Ltda, editado na Travessa Guarani, 377, Aviário. CEP 69.909.230, Rio Branco - Acre

 

E-mail: opiniaoredacao@gmail.com